Religião

Dark Horse: ao menos US$ 9,2 milhões enviados sem retorno registrado

Segundo a PF, só US$ 2,8 milhões de mais de US$ 12 milhões enviados ao exterior constam como retorno; as ONGs da produtora são outro capítulo.

O Edifício Matarazzo, sede da Prefeitura de São Paulo, junto ao Viaduto do Chá, no centro da cidade
Edifício Matarazzo, sede da Prefeitura de São Paulo, no Vale do Anhangabaú: as emendas e o contrato citados no caso passam por instituições municipais (foto de arquivo).Foto: Sueli Finoto / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Em 16 de outubro, a Polícia Federal (PF) pediu ao Supremo Tribunal Federal (STF) mais 90 dias de inquérito. A investigação trata do financiamento do filme Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro.

Segundo a PF, mais de US$ 12 milhões saíram do Brasil, mas só US$ 2,8 milhões constam como retornados. A PF chamou a divergência contábil de “severa”. Ou seja, menos de 23% do valor enviado aparece de volta, e pelo menos US$ 9,2 milhões não têm retorno registrado.

O inquérito tramita no STF com o ministro André Mendonça. Em 22 de julho, ele incluiu o senador Flávio Bolsonaro (Partido Liberal, PL) como investigado, a pedido da PF e com aval da Procuradoria-Geral da República (PGR).

O ex-deputado Eduardo Bolsonaro também é alvo. As suspeitas são de lavagem de dinheiro, evasão de divisas (saída irregular de recursos para o exterior) e corrupção. Investigado não é réu: as reportagens consultadas não registram denúncia formal contra Flávio.

O dinheiro que saiu e o que voltou

O caso começou com áudios publicados pelo Intercept em maio. Neles, Flávio negociou com o banqueiro Daniel Vorcaro US$ 24 milhões para a produção, cerca de R$ 134 milhões. Segundo a CNN Brasil, pelo menos US$ 10,6 milhões foram pagos entre fevereiro e maio de 2025. Segundo a revista Piauí, a soma conhecida subiu para US$ 12,3 milhões.

Menos de 23% do dinheiro enviado ao exterior aparece como retorno Em US$ milhões, valores citados em reportagens e pela PF, 2025 e 2026

Item US$ milhões
Negociado por Flávio com Vorcaro 24
Enviados ao exterior, segundo a PF mais de 12
Pagos entre fevereiro e maio de 2025 10,6
Diferença sem retorno registrado (cálculo da redação) pelo menos 9,2
Retorno registrado, segundo a PF 2,8

Fonte: Intercept (áudios, maio de 2026); CNN Brasil (documentos da investigação); Polícia Federal, segundo O Povo e Ohoje (outubro de 2026). Diferença: 12 menos 2,8. Elaboração: redação.

O dinheiro ia para o fundo Havengate, registrado no Texas e administrado pelo advogado Paulo Calixto, que atende Eduardo Bolsonaro. Os valores da tabela vêm de fontes diferentes e não devem ser somados. Dividindo US$ 2,8 milhões por US$ 12 milhões, o retorno fica em torno de 23%, e a proporção real é ainda menor.

O que a PF ainda precisa provar

Em 16 de outubro, Flávio disse à Globo que o patrocínio foi privado, “sem absolutamente nenhuma contrapartida”. Ele atribuiu a diferença contábil a “um contrato que não foi cumprido”, segundo a CNN Brasil. Em 9 de outubro, a PF pediu ao Ministério da Justiça cooperação com os Estados Unidos para rastrear o dinheiro. No pedido de 90 dias, a polícia diz precisar concluir perícias contábeis; até 21 de outubro, as fontes consultadas não registravam decisão de Mendonça.

As ONGs e os contratos públicos

Em dezembro de 2025, o Intercept revelou que a sócia da produtora, Karina Ferreira da Gama, comanda organizações não governamentais (ONGs) ligadas ao mundo evangélico. Uma delas, o Instituto Conhecer Brasil (ICB), tem contrato de Wi-Fi com a Prefeitura de São Paulo. O contrato começou em 2024 com valor inicial de R$ 108 milhões. Um aditivo de cerca de R$ 49 milhões elevou o total, que reportagens situam entre R$ 143 milhões e R$ 157 milhões.

A prefeitura diz que não pagou pelos 5 mil pontos e que as verbas irregulares foram devolvidas em 2025. A defesa da produtora diz que uma perícia privada mostra que o filme custou cerca de R$ 75 milhões e não usou dinheiro público. As reportagens consultadas não mostram dinheiro das ONGs indo para o filme.

Segundo o Intercept, emendas de vereadores paulistanos somaram R$ 1,08 milhão para um evento de jovens da Igreja Universal; a redação não confirmou esses dados. Outra reportagem fala em cerca de R$ 1 milhão para a Academia Nacional de Cultura, presidida por Karina, num festival de dança ligado à igreja. O instituto de Karina pediu R$ 8,59 milhões pela Lei Rouanet, mas captou só R$ 107 mil, segundo a Folha. Flávio já disse que o filme teve “zero de lei Rouanet”.

O que diz Flávio Bolsonaro: Em 16 de outubro, ele afirmou que o patrocínio de Vorcaro foi privado e lícito, e que a diferença contábil se deve a “um contrato que não foi cumprido”. Fonte: entrevista à Globo, segundo a CNN Brasil.

O que isso significa

Os números da PF mostram uma diferença concreta: pelo menos US$ 9,2 milhões enviados sem retorno registrado. Eles não dizem, sozinhos, para onde o dinheiro foi. Essa resposta depende de perícia contábil e da cooperação com os Estados Unidos.

Os contratos da prefeitura com o ICB estão documentados. A ligação entre esse dinheiro e o filme, porém, ainda não foi demonstrada. O próximo passo é a decisão de Mendonça sobre os 90 dias.

Como fizemos: Usamos reportagens que citam documentos da investigação, o pedido da PF ao STF de 16 de outubro de 2026 e a cobertura dos contratos da prefeitura, consultadas em 21 de outubro de 2026. Não tivemos acesso direto aos autos sigilosos nem aos portais oficiais de contratos. Valores em dólar e em reais de datas diferentes não foram corrigidos pela inflação, por isso não formam série. Os cálculos de 23% e de US$ 9,2 milhões são nossos: 2,8 dividido por 12, e 12 menos 2,8. Os dados não mostram o destino final do dinheiro, que depende de perícia.

Correção: Uma versão anterior deste texto dizia que a Lei Rouanet havia recusado o pedido da produtora. Os projetos foram autorizados, mas captaram só R$ 107 mil dos R$ 8,59 milhões pedidos. O texto também citava só o valor inicial do contrato de Wi-Fi, de R$ 108 milhões, e atribuía as ONGs ao “dono” da produtora. As reportagens identificam a sócia Karina Ferreira da Gama.

Fontes