Devido processo

Pouco mais da metade do dinheiro prometido ao filme saiu do país

A PF pediu ajuda dos Estados Unidos em 9 de outubro e mais 90 dias para o inquérito que investiga Flávio Bolsonaro.

Duas torres de fachada listrada em preto e branco, com brasões da Polícia Federal, sob céu azul em Brasília
Prédios da sede da Polícia Federal no Setor Comercial Norte, em Brasília, em abril de 2023 (foto de arquivo).Foto: Marcos Oliveira / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Em 9 de outubro, a Polícia Federal (PF) pediu ao Ministério da Justiça ajuda dos Estados Unidos. O objetivo é rastrear o dinheiro do filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro, segundo a CNN Brasil.

Segundo a PF, pouco mais da metade do valor prometido ao filme foi enviada ao exterior. O banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, se comprometeu a pagar US$ 24 milhões, segundo documento apresentado em uma delação. A PF rastreou US$ 12,3 milhões enviados em sete remessas. Em 15 ou 16 de outubro, a PF pediu mais 90 dias para concluir o inquérito.

O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), incluiu o senador Flávio Bolsonaro como investigado em 22 de julho, segundo a Agência Brasil. A Procuradoria-Geral da República (PGR) deu aval à investigação. A existência do inquérito só se tornou pública em setembro, quando Mendonça levantou parte do sigilo. Flávio é candidato à Presidência pelo Partido Liberal (PL).

Quem é investigado, e por quê

O inquérito apura suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção. Lavagem é dar aparência legal a dinheiro de origem suspeita. Evasão de divisas é mandar dinheiro ao exterior sem declará-lo às autoridades.

Investigado não é réu. A pessoa é alvo da apuração, e só depois o Ministério Público (MP) decide se acusa alguém. Até agora, não há denúncia contra Flávio, que tem direito à presunção de inocência. Eduardo Bolsonaro, ex-deputado, também é alvo e nega ter recebido recursos de Vorcaro ou do fundo, segundo a CNN Brasil.

A trilha do dinheiro

Segundo a CNN Brasil, pelo menos US$ 10,6 milhões foram pagos entre fevereiro e maio de 2025, em seis transferências. O dinheiro foi para o Havengate Development Fund, um fundo registrado no Texas, nos Estados Unidos. O fundo está ligado ao advogado Paulo Calixto, que foi responsável técnico pela imigração de Eduardo Bolsonaro para os Estados Unidos, segundo a BBC News Brasil. O Intercept Brasil relatou que o fundo abandonou um projeto imobiliário no Texas antes de receber os milhões.

A tabela abaixo mostra os três valores citados. Segundo a PF, o documento do delator Antônio Carlos Freixo Júnior, o “Mineiro”, menciona a produção do filme, em aparente contradição com o que ele afirmou. Flávio diz que o dinheiro era privado e lícito, e atribui a diferença a um contrato que não foi cumprido.

Pouco mais da metade do valor prometido ao filme foi enviada ao exterior Em US$ milhões e percentual do compromisso de US$ 24 milhões; pagamentos de 2025 e registros até outubro de 2026

Medida US$ milhões % do compromisso
Compromisso em documento do delator 24,0 100%
Enviados ao exterior em sete remessas 12,3 51%
Pagos entre fevereiro e maio de 2025 10,6 44%

Fonte: Folha de Pernambuco, com dados da PF; CNN Brasil. Percentuais: cálculo da redação. Os valores podem se referir ao mesmo dinheiro e não se somam. Elaboração: redação.

As mensagens e as versões

Em setembro de 2026, Mendonça homologou a delação de Freixo Júnior. Delação é o acordo em que um investigado colabora com a Justiça em troca de benefícios.

Em 16 de novembro de 2025, um dia antes da prisão de Vorcaro, Flávio escreveu a ele: “Irmão, estou e estarei contigo sempre…”. A mensagem foi publicada pelo Intercept Brasil em maio, segundo a Agência Pública. Flávio disse que retomou o contato porque parcelas do patrocínio estavam atrasadas.

As versões de Flávio também mudaram. Em 13 de maio, ele disse “É mentira” a um jornalista do Intercept e, em nota, confirmou ter buscado “patrocínio PRIVADO para um filme PRIVADO”. Em agosto, numa entrevista ao Jornal Nacional, ele afirmou que os detalhes já tinham sido apresentados. A agência Lupa classificou a afirmação como falsa.

O que diz Flávio Bolsonaro: Em entrevista à TV Globo, em 16 de outubro, ele disse que o dinheiro era privado e lícito, sem contrapartida, e que o contrato não foi cumprido, segundo a CNN Brasil. Em nota de maio, afirmou que o projeto não usou dinheiro público, segundo o Poder360. A Agência Brasil informou ter tentado contato com a defesa, sem resposta registrada.

O que isso significa

O número mais concreto do caso é este: pouco mais da metade do valor prometido foi enviada ao exterior. Ainda não se sabe o destino do restante, nem o caminho completo de cada remessa.

O pedido de 90 dias ainda não tem decisão divulgada, e cabe ao ministro Mendonça decidir. Nas fontes consultadas, nenhuma explicação fecha a diferença entre o prometido e o enviado. A resposta depende da cooperação com os Estados Unidos e das perícias contábeis ainda em curso.

Como fizemos: Usamos reportagens e documentos sobre o inquérito publicados entre maio e outubro de 2026, acessados em 21 de outubro de 2026. Os percentuais são cálculos nossos: US$ 12,3 milhões e US$ 10,6 milhões divididos por US$ 24 milhões, ou 51% e 44%, sem correção pela inflação, pois não comparamos anos. Não somamos as séries, porque as fontes não dizem se são o mesmo dinheiro, e as conversões para reais variam entre reportagens (R$ 122 milhões e R$ 134 milhões para os mesmos US$ 24 milhões). O inquérito segue sob sigilo, então os dados não mostram o destino final do dinheiro nem a conclusão da PF.

Correção: uma versão anterior deste texto atribuía à PF a expressão “divergência severa” e dizia que US$ 2,8 milhões voltaram ao Brasil registrados. Nenhuma das fontes consultadas traz esses dados, e eles foram retirados. A versão também dava 14 de fevereiro de 2025 como data de um pagamento de US$ 2 milhões, sem confirmação, e citava 6 de agosto como data alternativa de inclusão de Flávio no inquérito. A data confirmada pela Agência Brasil é 22 de julho.

Fontes