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Espionar jornalista tira do leitor o direito de saber
A espionagem de repórteres pela Abin paralela afeta o direito do leitor de ser informado. Quem vencer em 25 de outubro precisa assumir esse compromisso.
Este texto pertence ao caderno Comentário. A análise é de quem assina e não representa necessariamente a posição do Jornal Liberdade.

Comentário: este texto expressa a posição da redação do Jornal Liberdade. Os fatos citados têm fonte no fim do texto.
Em 2025, a Polícia Federal (PF) entregou ao Supremo Tribunal Federal (STF) um relatório sobre a chamada “Abin paralela”. Trata-se de uma estrutura clandestina dentro da Agência Brasileira de Inteligência (Abin). Entre os alvos estavam jornalistas, como a repórter Alice Maciel, da Agência Pública, monitorada em maio de 2022.
Segundo a própria Agência Pública, que publicou trechos do relatório, o único argumento registrado para vigiar a repórter foi que ela seria uma “jornalista ‘left’”. As mensagens também falam em “ver o lado que a jornalista joga”. Vigiar quem apura, por causa de posição política, é censura por outros meios.
Esse abuso não atinge só o repórter. Atinge a fonte que deixa de falar, a pauta que não sai e o leitor que nunca fica sabendo. O direito de saber é do público, não do jornalista.
O que a Justiça já decidiu
A PF indiciou o ex-diretor da Abin Alexandre Ramagem em 2025, pelo esquema. Em 20 de julho de 2026, o ministro do STF Alexandre de Moraes arquivou a investigação contra ele e contra Jair Bolsonaro. A decisão seguiu parecer da Procuradoria-Geral da República (PGR).
Arquivar significa encerrar a investigação sem denúncia. Não é absolvição. Segundo a decisão, os fatos já foram analisados no processo da trama golpista, que resultou em condenações de Bolsonaro e de Ramagem.
Moraes também arquivou a apuração contra cinco outros investigados, entre eles o atual diretor-geral da Abin, Luiz Fernando Corrêa. Para esses cinco, segundo a Correio da Manhã, o ministro afirmou que “não foram apresentados indícios suficientes”. O restante do caso foi enviado à Justiça Federal de primeira instância, em Brasília, onde Carlos Bolsonaro segue investigado.
O que dizem a União e a Abin: Segundo a Agência Pública, nem a União nem a Abin se manifestaram sobre a ação civil proposta em abril. Não localizamos manifestação pública posterior de nenhum dos dois.
Em 7 de abril de 2026, cinco entidades entraram com uma ação civil pública contra a União. São elas a Repórteres Sem Fronteiras (RSF), a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), a Artigo 19, a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) e o Sindicato dos Jornalistas de São Paulo. Esse tipo de ação protege direitos de um grupo, não de uma pessoa. Os autores pedem a proibição da vigilância ilegal e ordem judicial fundamentada para escutas e acesso a dados. Até a publicação deste texto, não localizamos decisão sobre o mérito.
O que dizem as campanhas e as entidades
Brasil subiu 58 posições no ranking de liberdade de imprensa desde 2022 Posição entre 180 países no Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa, da RSF
| Ano | Posição | Nota |
|---|---|---|
| 2022 | 110º | — |
| 2026 | 52º | 66,37 |
Fonte: RSF, Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa, página do Brasil. Elaboração: redação.
A RSF atribui a melhora à normalização das relações entre o poder público e a imprensa no governo Lula. A mesma organização afirma que o sigilo da fonte, “garantia constitucional essencial ao jornalismo”, segue como motivo de preocupação. Ela também pede garantias duradouras de independência para a Empresa Brasil de Comunicação (EBC), estatal de comunicação.
Depois de votar no Rio, em 4 de outubro, Flávio Bolsonaro (PL) disse: “Pode criticar o governo à vontade”. Segundo o Times Brasil, ele afirmou também que, se eleito, quer assegurar a liberdade dos meios de comunicação. Cinco dias depois, em 9 de outubro, sua campanha pediu ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a suspensão de 221 publicações. Os alvos são parlamentares do PT, o coletivo 342 Artes, a Central Única dos Trabalhadores (CUT), a Mídia Ninja e outros apoiadores de Lula, segundo a Agência Brasil. A campanha afirma: “Não se pede a cassação de perfis, a censura prévia de opiniões ou a responsabilização dos seguidores.” O relator, ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, pediu detalhes à campanha. Não há decisão final.
O campo de Lula também sofreu decisões do TSE. Em 11 de outubro, o ministro do TSE André Mendonça mandou a CUT retirar publicações do Instagram por “indícios de propaganda eleitoral irregular”. No dia 12, o ministro Marco Aurélio Bellizze mandou o Fórum das Entidades Nacionais dos Servidores Públicos Federais (Fonasefe) retirar pelo menos 17 publicações. Segundo a Correio da Manhã, a medida “é provisória e ainda será submetida ao plenário do TSE”. Não localizamos posição pública da campanha de Lula sobre a ação civil das entidades.
Em 14 de outubro, dez entidades, entre elas o Comitê para a Proteção de Jornalistas (CPJ) e a RSF, divulgaram nota conjunta. O texto diz que o segundo turno também decide o futuro da liberdade de imprensa. Alerta para retrocessos caso Flávio vença, e cita a Abin paralela como vigilância ilegal contra a imprensa.
O direito de saber não depende do partido que governa. Ele depende de regras que valem para qualquer governo. A Constituição garante “o acesso à informação” e “resguardado o sigilo da fonte, quando necessário ao exercício profissional” (artigo 5º, inciso XIV). O artigo 220 proíbe leis que possam “constituir embaraço à plena liberdade de informação jornalística”.
A redação defende três compromissos para quem vencer em 25 de outubro. O primeiro é nenhuma vigilância de jornalistas sem ordem judicial fundamentada. O segundo é a proteção ao sigilo da fonte em todos os órgãos. O terceiro é o controle externo da Abin com participação da sociedade civil, como pede a ação de abril.
Promessas de liberdade de imprensa precisam virar regra escrita. Elas não podem depender de quem está no poder. A ação de abril não tem decisão de mérito localizada. O pedido da campanha de Flávio não tem julgamento final. Parte da investigação da Abin paralela segue na primeira instância. Dizer que o caso está encerrado ignora que, segundo as mensagens citadas pela PF, repórteres foram vigiados por suas posições políticas.
Como fizemos: Usamos reportagens da Agência Pública, do Jornal Sete, do Times Brasil, da Correio da Manhã e da Agência Brasil, além de páginas da RSF e da Fenaj, acessadas em 22 de outubro de 2026. A posição do ranking é a de 2026, divulgada pela RSF. Não fizemos cálculos além da diferença entre as posições (110º e 52º). Não tivemos acesso ao relatório da PF nem à íntegra da decisão de arquivamento; citamos trechos publicados por veículos.
Fontes
- Abin paralela: União é alvo de ação civil inédita por espionagem ilegal de jornalistas — Agência Pública (acesso em 22/10/2026)
- Repórteres Sem Fronteiras e parceiras processam o Estado brasileiro por vigilância ilegal contra imprensa — RSF (acesso em 22/10/2026)
- Alice Maciel, repórter da Agência Pública, foi alvo de monitoramento da Abin paralela — Agência Pública (acesso em 22/10/2026)
- PF indicia Carlos Bolsonaro e Ramagem no caso da Abin Paralela — Brasil de Fato (acesso em 22/10/2026)
- Moraes arquiva investigação da Abin paralela contra Bolsonaro e Ramagem — Jornal Sete (acesso em 22/10/2026)
- Moraes arquiva investigação contra Bolsonaro por “Abin Paralela” — Correio da Manhã (acesso em 22/10/2026)
- Página do Brasil no Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa 2026 — RSF (acesso em 22/10/2026)
- Eleições no Brasil: liberdade de imprensa avança sob presidência de Lula, mas desafios estruturais — RSF (acesso em 22/10/2026)
- Entidades do jornalismo alertam para riscos à liberdade de imprensa no segundo turno — Fenaj (acesso em 22/10/2026)
- Decisão do TSE: Flávio Bolsonaro vota no Rio e reforça defesa da liberdade de expressão — Times Brasil (acesso em 22/10/2026)
- Campanha de Flávio aciona TSE contra posts de artistas e parlamentares — Agência Brasil, republicada pelo Acessa (acesso em 22/10/2026)
- TSE manda CUT retirar publicações contra Flávio Bolsonaro — Times Brasil (acesso em 22/10/2026)
- TSE manda retirar 17 publicações contra Flávio Bolsonaro e exige dados da Meta — Correio da Manhã (acesso em 22/10/2026)
- Constituição Federal de 1988 — Planalto (acesso em 22/10/2026)
