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Depois da urna, o fiel não é bloco de votos
Após a reeleição de Lula, líderes religiosos reagiram de formas diferentes, e o Estado laico protege o fiel de virar bloco de votos.
Este texto pertence ao caderno Comentário. A análise é de quem assina e não representa necessariamente a posição do Jornal Liberdade.

Este é um comentário do Jornal Liberdade, não uma notícia.
No domingo (25), Lula foi reeleito com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro (PL), segundo a CNN Brasil. Votos válidos são os votos dados a candidatos, sem contar brancos e nulos.
Na segunda-feira (26), os púlpitos voltaram ao assunto. Lideranças evangélicas que apoiaram Flávio lamentaram a vitória de Lula, e várias delas disseram aceitar o resultado. Este comentário defende uma ideia simples: o fiel não é um bloco de votos, e o Estado laico, que não adota religião oficial nem se alia a igrejas, existe para proteger essa diferença.
Três reações, três tons
O pastor Silas Malafaia publicou um vídeo depois da votação. Ele disse: “Deus tenha misericórdia do Brasil e livre-nos do caos econômico e social”. Lamentou o resultado e afirmou: “mas essa é a decisão do povo brasileiro”.
O bispo Robson Rodovalho, fundador da Sara Nossa Terra, afirmou à Folha de S.Paulo: “Fica nossa tristeza e nossa lástima, mas democracia é isso, vence quem consegue comunicar e convencer a maioria”. O apóstolo Estevam Hernandes, da Igreja Renascer em Cristo, disse: “Democraticamente devemos aceitar, pois nos submetemos à vontade soberana de Deus”.
São três respostas à mesma eleição. Uma pede misericórdia, outra fala em regras democráticas e a terceira vincula a aceitação à fé. Nenhuma delas fala por um bloco único.
O professor Joanildo Burity, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), disse ao site IHU Unisinos, em 2022: “As visões que apresentam o voto evangélico como monolítico e em bloco estão equivocadas”. Na mesma entrevista, afirmou: “É um voto variável”.
O púlpito e o palanque
Em 18 de setembro, a Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito, que declarou apoio à reeleição de Lula, publicou nas redes: “A política pode e deve ser discutida pelos cristãos, mas o púlpito não pode ser transformado em palanque”. A publicação não identifica um autor.
A frase vale para os dois lados. Vale para o culto que pede voto em Flávio e para o culto que pede voto em Lula. Essa regra protege o fiel de ambos os palanques.
Antes do segundo turno, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) divulgou nota que pede “respeito aos resultados legítimos das urnas” e reafirma “a importância da defesa da Constituição”.
Os números que o discurso de bloco esconde
Os dados do Censo 2022 mostram a diversidade. Em resultados preliminares de amostra, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 6 de junho de 2025, 56,7% das pessoas de 10 anos ou mais se diziam católicas e 26,9% evangélicas. Os sem religião somavam 9,3%.
Umbanda e candomblé, religiões de matriz africana, somavam 1,0% da mesma população, contra 0,3% em 2010. Esse grupo é pequeno no censo, mas não é pequeno nas denúncias.
O Disque 100, canal do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) para denúncias de violações de direitos, recebeu 2.472 denúncias de intolerância religiosa em 2024. É alta de 66,8% sobre as 1.481 de 2023, segundo a Agência Brasil.
Em 1.842 denúncias, a religião não foi informada. Nas 630 em que foi, umbanda (151) e candomblé (117) somam 268 denúncias, ou 42,5%. A evangélica aparece em 88 (14,0%), e a católica, em 53 (8,4%).
Umbanda e candomblé reúnem cerca de 1% da população, mas aparecem em mais de 40% das denúncias que citam religião. Essa conta é nossa e tem limites. Denúncia registrada não é caso comprovado, e quem não denuncia não entra nos números.
O discurso de bloco olha para o tamanho das igrejas. Não olha para quem sofre ataque por causa da fé.
O que o Estado laico exige
O artigo 19 da Constituição Federal (CF) proíbe a União, os estados e os municípios de “estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los” e de manter com eles “relações de dependência ou aliança”. O artigo 5º diz que a “liberdade de consciência e de crença” é “inviolável” (inciso VI). E determina que “ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa” (inciso VIII).
Um bloco de votos contraria o espírito desse artigo 5º. Quem é tratado como parte de um rebanho eleitoral deixa de ser visto como pessoa com voto próprio. Quem pensa diferente do pastor passa a ser cobrado pela fé, e não pelo seu voto.
O que diz a CNBB: Em nota divulgada antes do segundo turno, a conferência pede “respeito aos resultados legítimos das urnas” e reafirma “a importância da defesa da Constituição”. A redação não enviou perguntas à CNBB antes desta publicação.
O que fica em aberto
A eleição acabou nas urnas, mas a relação entre igreja e política continua. Os dados do Censo ainda são preliminares. Os números de denúncias precisam de conferência antes de qualquer conclusão definitiva.
A regra constitucional, porém, não depende de estatística. A liberdade de crença é inviolável, e ninguém perde direitos por causa da fé ou do voto.
Como fizemos: Usamos o resultado do segundo turno segundo a CNN Brasil, as declarações de líderes evangélicos, de 25 e 26/10/2026, segundo a Folha Gospel e o Jornal de Brasília, e a nota da CNBB segundo o Diário de Pernambuco, todos acessados em 27/10/2026. Os percentuais do Censo 2022 são do IBGE (resultados preliminares, de 6/6/2025). As denúncias são do Disque 100 em 2024, pela Agência Brasil (21/01/2025). Calculamos a parcela de umbanda e candomblé sobre as 630 denúncias que informam religião (268, ou 42,5%), e a parcela das 1.842 sem informação (74,5% do total de 2.472). Os dados não mostram quantos fiéis deixam de denunciar.
Fontes
- Dólar sobe 8% e Bolsa tem maior queda desde a pandemia após vitória de Lula — CNN Brasil (acesso em 27/10/2026)
- Líderes evangélicos que apoiaram Flávio lamentam vitória de Lula, mas reconhecem resultado das urnas — Folha Gospel (acesso em 27/10/2026)
- Líderes evangélicos que apoiaram Flávio adotam tom resignado, e bispo diz que ‘Lula soube jogar’ — Jornal de Brasília (acesso em 27/10/2026)
- Conferência Nacional dos Bispos pede respeito ao resultado das urnas e defesa da Constituição — Diário de Pernambuco (acesso em 27/10/2026)
- Frente de evangélicos declara apoio e faz jingle para Lula — BNews (acesso em 27/10/2026)
- Entrevista com Joanildo Burity sobre o voto evangélico — IHU Unisinos (publicada em 28/10/2022)
- Censo 2022: católicos seguem em queda, evangélicos e sem religião crescem no país — Agência Gov (acesso em 27/10/2026)
- Disque 100 registra denúncias de intolerância religiosa em 2024 — Agência Brasil (acesso em 27/10/2026)
- Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 — Planalto (acesso em 27/10/2026)
