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Patrocínio de bets não pode valer mais que a saúde pública

Impacto anual estimado no SUS é 71 vezes a perda alegada pelo Flamengo; transição para clubes não deve reabrir um mercado ligado a danos documentados.

Este texto pertence ao caderno Comentário. A análise é de quem assina e não representa necessariamente a posição do Jornal Liberdade.

Alexandre Padilha veste jaleco do SUS e discursa em uma tribuna no Senado
O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, em sessão no Senado, em setembro de 2025.Foto: Marcos Oliveira / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

O debate sobre as bets não pode ser reduzido ao patrocínio estampado na camisa dos clubes. O Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) estima em R$ 30,6 bilhões anuais o impacto dos danos das apostas no Sistema Único de Saúde (SUS).

O valor é cerca de 71 vezes a perda anual de R$ 430 milhões alegada pelo Flamengo na audiência do Supremo Tribunal Federal (STF). As cifras têm origens e métodos diferentes. Ainda assim, mostram por que a saúde coletiva precisa estar no centro da decisão.

Nossa posição é favorável à manutenção da proibição. Uma transição limitada para resolver contratos pode ser discutida. Ela não deve reabrir indefinidamente o mercado nem transferir à sociedade o custo de preservar receitas publicitárias.

A conta pública vai além da arrecadação

O estudo do IEPS inclui tratamentos de depressão e ansiedade e impactos das mortes por suicídio. Não é uma simples estimativa de impostos que deixaram de ser arrecadados. É uma tentativa de medir danos que ficam com as famílias e com o serviço público.

O Ministério da Saúde informou aumento de 200% na procura de atendimento no SUS por malefícios das bets. Também registrou 28 milhões de apostadores nos 12 meses anteriores à proibição. Cerca de 11 milhões apresentavam padrões de risco ou comportamento problemático.

Esses 11 milhões equivalem a 39,3% do total citado pelo ministro. Não significam 11 milhões de diagnósticos clínicos. Indicam uma população enorme exposta a riscos que a publicidade esportiva ajudou a normalizar.

O impacto social estimado supera a receita em disputa Valores anuais apresentados por instituições e clube, em 2026

Item Valor anual Origem
Impacto dos danos no SUS R$ 30,6 bilhões Estudo do IEPS
Perda alegada pelo Flamengo R$ 430 milhões Vice-presidente do clube no STF
Razão entre os dois valores Cerca de 71 vezes Cálculo da redação

Fonte: IEPS, Agência Brasil e STF. Elaboração: redação.

A arrecadação também não compensa necessariamente o dano. Segundo a Agência Brasil, apenas 1% da receita das operadoras era destinado ao Ministério da Saúde. Essa fatia não deve ser confundida com uma solução suficiente para prevenção e tratamento.

Clubes têm obrigações reais. Salários, categorias de base e compromissos contratados não desaparecem com uma mudança legal. O Botafogo afirmou que seu plano de recuperação judicial considerava patrocínio. Atletas alertaram para efeitos maiores nas equipes pequenas.

Esses argumentos justificam planejamento e apoio à diversificação de receitas. Não provam que a atividade anterior fosse segura. A dificuldade de substituir um patrocinador mede a dependência criada, não a legitimidade social do produto.

Os trabalhadores do futebol não podem pagar sozinhos pela mudança. Um plano de transição deve proteger empregos e estimular patrocínios que não dependam da perda financeira das famílias.

Transição não pode significar retrocesso

O presidente do Fluminense reclamou de uma adaptação de dez dias e citou períodos mais longos em outros mercados. O prazo é um ponto legítimo de debate. O STF pode examinar se contratos exigem modulação, sem transformar essa análise em autorização permanente.

Uma saída constitucional deve distinguir obrigações passadas de novas operações. Também precisa impedir que a transição renove automaticamente os mesmos contratos. Caso contrário, o prazo excepcional se torna uma brecha para manter o modelo que produziu os danos.

O argumento de que a proibição fortalece o mercado ilegal exige fiscalização mais forte, não desistência. A Operação Azzardo, deflagrada nesta quinta-feira (5), mostra que plataformas clandestinas já eram investigadas antes de qualquer acordo sobre os clubes.

A operação apura rede que movimentou R$ 734 milhões sem autorização, segundo a Polícia Civil do Distrito Federal. Apostadores relataram não receber valores. O caso é investigação, não condenação, mas evidencia o risco de consumidores sem proteção em sites clandestinos.

A solução soberana é financiar inteligência, bloqueio de fluxos e educação pública. Também é ampliar o atendimento a quem desenvolveu dependência. O SUS oferece apoio pelo Meu SUS Digital e por unidades presenciais, informação que precisa chegar às famílias.

O que dizem os clubes: Flamengo e Fluminense defenderam contratos firmados sob a legislação anterior e pediram transição. Botafogo e atletas citaram recuperação judicial, empregos e equipes menores. O governo respondeu que a regulação anterior não evitou danos à renda, à saúde e às famílias.

O futebol brasileiro é patrimônio cultural e econômico. Protegê-lo exige receitas sustentáveis, não dependência de um mercado associado a adoecimento e endividamento. A transição deve ajudar clubes e trabalhadores a sair dessa armadilha, sem convencer o país a permanecer nela.

Como fizemos: Consultamos dados do IEPS, Ministério da Saúde, STF e Agência Brasil, acessados em 06/11/2026. Dividimos R$ 30,6 bilhões por R$ 430 milhões e calculamos 11 milhões entre 28 milhões. Comparamos magnitudes anuais, sem afirmar equivalência metodológica ou causalidade entre o patrocínio de um clube e o custo total do SUS.

Fontes