Devido processo

TSE exigiu base factual dos dois lados em três de quatro decisões

Em 8 de outubro, o TSE mandou retirar três posts de Flávio; o vídeo com IA de Lula caiu por falta de etiqueta, não por falta de base factual.

Sessão plenária do Tribunal Superior Eleitoral, em Brasília
Sessão plenária do Tribunal Superior Eleitoral, em Brasília, em agosto de 2025 (foto de arquivo).Foto: Alejandro Zambrana / Secom / TSE / Wikimedia Commons (domínio público)

Na noite de 18 de outubro, as buscas por “Flávio Comando Vermelho” passaram de 100 mil no Google, e “Flávio miliciano” ultrapassou 500 mil. Segundo o Poder360, às 22h10 o deputado André Janones orientou o canal “Exército do Lula”, no WhatsApp, a pesquisar esses termos. O canal tem 5,4 milhões de seguidores. A reportagem não traz manifestação de Janones sobre a convocação.

Há uma pergunta mais útil que o número de buscas: qual critério o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) usa ao mandar tirar do ar posts que ligam candidatos a facções? Em três de quatro decisões desde junho, a corte exigiu base factual, nos dois lados da disputa.

Em 22 de junho, a ministra Estela Aranha mandou remover, em decisão provisória, oito publicações no Facebook e no Instagram. Elas associavam o senador Flávio Bolsonaro à Operação Unha e Carne, da Polícia Federal (PF), e ao Comando Vermelho (CV). Segundo a ministra, Flávio não é investigado, indiciado nem denunciado nessa operação.

Em 8 de outubro, o TSE mandou Flávio retirar três publicações da rede X. Uma era um vídeo com imagem de Lula feita por inteligência artificial (IA), sem etiqueta. As outras duas associavam o presidente ao Primeiro Comando da Capital (PCC) e ao CV.

Base factual nos dois lados

A tabela reúne as quatro decisões. Em três, a justificativa foi a falta de base factual. A exceção é o vídeo de Lula, retirado por não ter identificação de conteúdo feito com IA.

Só o vídeo com IA saiu do ar por outro motivo que a falta de base factual Decisões do TSE sobre posts de Flávio e contra ele, com o fundamento informado, de junho a outubro de 2026

Data Publicação Alvo Fundamento informado
22/6 8 posts no Facebook e no Instagram (liminar) Flávio Sem “vínculo fático” com a investigação
8/10 Vídeo com IA de Lula, sem etiqueta Lula Falta de identificação de conteúdo feito por IA
8/10 2 posts no X ligando Lula ao PCC e ao CV Lula “Sem elementos mínimos” que os sustentem
15/10 1 post no Instagram ligando Flávio ao CV Flávio “Sem respaldo fático mínimo”

Fonte: Congresso em Foco (22/6), SBT News (8/10) e TSE (15/10). Elaboração: redação.

Há também decisões contra Flávio. Em 15 de outubro, o plenário referendou por unanimidade a remoção de um post no Instagram que o associava ao CV. O representante do Partido Liberal (PL) disse na sessão que um procedimento ligado ao caso foi arquivado em 2022. Não localizamos esse despacho.

A exceção do vídeo com IA

O vídeo de Lula saiu do ar por outro motivo. Segundo o SBT News, o relator, ministro André Mendonça, mudou de posicionamento e acatou o pedido da Federação Brasil da Esperança, do Partido dos Trabalhadores (PT). A votação sobre esse vídeo foi unânime. A reportagem não informa o resultado das outras duas peças.

Canella, Bacellar e a resposta de Flávio

No Rio, a PF prendeu em 15 de outubro o ex-prefeito de Belford Roxo, Márcio Canella (União Brasil). Segundo a PF, ele é “patrono político” de um grupo “ligado à facção Comando Vermelho”, que lava dinheiro em postos de combustíveis. Em abril, Flávio havia dado a Canella “apoio integral, 100%”, na disputa pelo Senado.

Sobre a prisão, Flávio disse que “as prisões surpreenderam”. Ele afirmou que quem “comprovadamente tem envolvimento” com PCC e Comando Vermelho “tem que pagar dentro da lei”. A mãe do senador, Rogéria Bolsonaro, foi anunciada como suplente de Canella em fevereiro e deixou a posição em julho, segundo o SBT News. As reportagens consultadas não trazem manifestação de Canella ou da defesa.

O ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio, Rodrigo Bacellar, foi denunciado pela Procuradoria-Geral da República (PGR) em março. Segundo a denúncia, ele atrapalhou investigações sobre a presença do CV nas instituições fluminenses. A reportagem sobre a nova prisão dele, em 27 de março, não cita Flávio.

O que diz o TSE: Pelo relator, ministro André Mendonça, associar Lula ao PCC e ao CV, “sem elementos mínimos que a sustentem”, ultrapassou “os limites da crítica política”. Sobre o vídeo com IA, o relator entendeu que o conteúdo descumpriu a regra que exige identificar material fabricado ou alterado por tecnologia. Fonte: decisão de 8 de outubro, relatada pelo SBT News.

O que isso significa

Em três das quatro decisões, o TSE cobrou base factual e aplicou o critério aos dois lados. O vídeo com IA foi a exceção: uma etiqueta ausente se confere no próprio vídeo, mas uma ligação com facção exige base factual.

Ficam em aberto a investigação de Canella, a denúncia contra Bacellar e a alegação do PL sobre o arquivamento de 2022. Os dois são investigados ou denunciados, e vale a presunção de inocência até decisão definitiva. O segundo turno é em 25 de outubro.

Como fizemos: Usamos as decisões do TSE de 22 de junho, 8 de outubro e 15 de outubro de 2026, conforme reportagens do SBT News e do Congresso em Foco e a nota do próprio tribunal, acessadas em 21 de outubro de 2026. A página do TSE não abriu na leitura automatizada, então conferimos a nota por resumo de busca. As buscas citadas são do Poder360, que usa o Google Trends; a ferramenta mostra volume relativo, não o total exato de pesquisas, e não separa quantas vieram da convocação. Não fizemos cálculos nem correção monetária.

Correção: A versão anterior deste texto dizia que as três publicações de 8 de outubro saíram do ar por ausência de base factual, e que a decisão foi unânime para as três. O vídeo com IA foi retirado por falta de identificação de conteúdo feito com IA, e a unanimidade foi confirmada só para ele. O texto também dizia que Rogéria Bolsonaro anunciou a suplência em julho; o anúncio foi em fevereiro. Tratava Bacellar como aliado apoiado por Flávio, o que as reportagens consultadas não confirmam, e deixava de fora as oito publicações removidas em junho.

Fontes