Imprensa

Entidades de imprensa pedem proteção a jornalistas antes do 2º turno

Nota conjunta de 10 entidades, de 14 de outubro, cita o Brasil em 52º no ranking da RSF e a ação contra a União sobre a Abin paralela.

Homem de camisa preta e crachá de palestrante apontando para um telão com texto de decisão judicial, em sala de congresso de jornalismo
Palestrante em sessão do Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Abraji, em 2018. Foto de arquivo e ilustrativa: não mostra o ato nem os casos citados na nota.Foto: Tiago Mali / Abraji / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Em 14 de outubro, dez entidades de jornalismo e de defesa da liberdade de imprensa divulgaram uma nota conjunta sobre o segundo turno da eleição presidencial, marcado para 25 de outubro. Para elas, o resultado pode consolidar a proteção a jornalistas ou abrir espaço para retrocessos.

A nota junta dois temas: a posição do Brasil em um ranking mundial e uma ação judicial contra a União. Essa ação trata da chamada “Abin paralela”, suposta estrutura de espionagem ilegal. Abin é a Agência Brasileira de Inteligência, serviço de inteligência do governo federal.

Quem assina

Assinam a nota a Repórteres Sem Fronteiras (RSF), que publica o ranking mundial de liberdade de imprensa, e o Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ), que monitora ataques a repórteres. Também assinam a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), a Artigo 19, a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e o Instituto Vladimir Herzog. Completam a lista o Instituto Tornavoz e três sindicatos de jornalistas.

O Brasil subiu no ranking

Segundo a nota, o Brasil foi da 110ª posição em 2022 para a 52ª em 2026. A própria RSF confirmou a colocação em texto de 2 de outubro. A pontuação é de 66,37, em uma lista de 180 países.

Para a RSF, a melhora vem da normalização das relações entre o governo federal e os jornalistas. A organização também aponta problemas antigos que continuam, como o assédio judicial contra repórteres e a fragilidade da imprensa plural.

A ação contra a União

Em 7 de abril, cinco entidades entraram com uma ação civil pública contra a União. Ação civil pública é o processo usado para defender interesses de um grupo inteiro. As autoras são RSF, Fenaj, Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), Artigo 19 e o Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo.

O caso se apoia em um relatório da Polícia Federal (PF) sobre a “Abin paralela”. Segundo a RSF, o relatório foi tornado público pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), em 19 de junho de 2025. Ele citou a RSF entre as organizações monitoradas. A própria RSF afirmou que pelo menos 13 jornalistas e três veículos também foram alvos da Abin.

Segundo a RSF e a Agência Pública, a ação pede indenização coletiva para a categoria. Pede também ordem judicial para qualquer escuta, acesso a dados ou monitoramento de localização de jornalistas. Por fim, pede cursos para agentes da Abin sobre o trabalho da imprensa.

Até a data desta reportagem, não encontramos decisão nem andamento público do processo. As reportagens consultadas também não informam o número do processo nem a vara em que ele tramita.

O que pedem as entidades

A nota não traz uma lista de pedidos a candidatos ou ao Estado. De forma geral, pede que se preservem os avanços recentes. Pede também que o poder público não seja usado contra jornalistas.

Artur Romeu, diretor da RSF para a América Latina, disse ao próximo governo: “Preservar essas conquistas, consolidá-las e avançar ainda mais”.

O que dizem Flávio Bolsonaro e sua campanha: Em evento no Rio de Janeiro, em outubro, o candidato disse que vai “garantir a liberdade de imprensa se eleito”, segundo a Agência Brasil. A campanha afirma que o pedido ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para suspender publicações “não caracteriza censura”. Até a publicação da reportagem da Agência Brasil, a campanha não respondeu ao pedido de comentário.

Flávio Bolsonaro (PL) é o adversário de Lula no segundo turno. A campanha pediu ao TSE a suspensão de 221 publicações de políticos, sindicatos, artistas e veículos de imprensa. Segundo a campanha, elas espalham desinformação contra a candidatura.

Um editorial de 55 veículos independentes, publicado em 14 de outubro, critica as propostas de Flávio. Segundo a Agência Brasil, o texto diz que ele tende a repetir ataques à imprensa e à democracia.

Sobre Lula (PT), não encontramos declaração da campanha sobre a imprensa nesta eleição. A RSF avalia que o governo atual normalizou a relação com jornalistas, mas cita desafios estruturais ainda sem solução.

O que fica em aberto

Duas questões seguem em aberto. A primeira é o resultado do segundo turno, em 25 de outubro. A segunda é a ação contra a União, que não tem decisão pública conhecida.

As entidades dizem que a eleição define se o país mantém os avanços recentes. O ranking mostra a melhora, mas a própria RSF lembra que os problemas estruturais continuam.

Como fizemos: Usamos a nota conjunta de 14/10/2026 na cópia publicada pela Fenaj, o ranking da RSF de 2/10/2026, o comunicado da RSF sobre a ação (7/4/2026), a reportagem da Agência Brasil (14/10/2026) e a reportagem da Agência Pública (abril de 2026), todos acessados em 22/10/2026. A posição 52ª foi conferida na página da RSF. Não conseguimos ler o texto do PDF publicado pelo CPJ, por isso a nota foi identificada pelo conteúdo e pela lista de signatários. Não encontramos decisão nem andamento da ação, que pode ter movimentação ainda não divulgada.

Fontes