Imprensa

Ataques diários a jornalistas nas redes sobem 74% até o 1º turno

A média diária passou de 188 para 327 ataques no X e no Instagram entre agosto e outubro, mas a maior parte da alta veio antes da reta final.

Mesa de audiência pública no Senado, com o senador Paulo Paim e três mulheres, com cartaz que diz "Chega de violência! Em defesa do jornalismo e dos/as jornalistas", e plateia em primeiro plano
Audiência pública da Comissão de Direitos Humanos (CDH) do Senado sobre violência contra jornalistas e liberdade de imprensa, com a presidente da Abraji, Katia Brembatti, na mesa, em dezembro de 2025 (foto de arquivo).Foto: Andressa Anholete / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Entre 16 de agosto e 4 de outubro, a Coalizão em Defesa do Jornalismo (CDJor) contou 14.182 ataques a jornalistas e veículos no X (antigo Twitter) e no Instagram. O grupo, que reúne 11 organizações de imprensa, divulgou o levantamento na sexta-feira (9).

Os ataques ficaram mais frequentes perto da votação. A média diária subiu de 188 no início da campanha para 327 nos oito dias antes do primeiro turno, uma alta de cerca de 74%. Os totais por período divulgados pela própria coalizão mostram, porém, que a maior parte dessa alta veio antes da reta final.

A CDJor reúne a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) e a Repórteres sem Fronteiras (RSF). O Laboratório de Internet e Ciência de Dados (Labic), da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), coletou e processou os dados. O Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio (ITS Rio) mediu a toxicidade das mensagens com a Perspective API, ferramenta do Google que estima a agressividade de um texto. Em 50 dias, os pesquisadores analisaram cerca de 3,7 milhões de publicações e comentários e monitoraram 652 termos e hashtags ofensivos.

A maior parte da alta veio antes da reta final

O gráfico mostra a média diária em quatro períodos. Entre 16 e 29 de agosto, a CDJor registrou 2.630 ataques, ou cerca de 188 por dia. No período seguinte, de 30 de agosto a 12 de setembro, foram 4.400, o equivalente a 314 por dia.

Gráfico de barras mostra que a média diária de ataques a jornalistas subiu de 188 por dia, de 16 a 29 de agosto, para 327 por dia nos oito dias finais, com a maior parte da alta até 12 de setembro Fonte: CDJor, boletins por período e relatório “Cobrir as eleições, enfrentar a violência”. Médias diárias calculadas pela redação. Elaboração: redação.

Depois disso, a média quase não mudou. De 13 a 26 de setembro, foram 4.537 ataques, cerca de 324 por dia. Nos oito dias finais, de 27 de setembro a 4 de outubro, a média chegou a 327. Ou seja, cerca de 90% da diferença entre 188 e 327 por dia já tinha ocorrido até 12 de setembro.

No fim da campanha, o X passou à frente

Pelo total, o Instagram concentrou 8.768 registros, ou 61,8%, e o X somou 5.414, ou 38,2%. Nos oito dias finais, porém, a proporção se inverteu: o X teve 1.382 registros, contra 1.233 no Instagram. Isso dá 52,8% dos ataques do período para o X, como mostra a tabela abaixo.

Na reta final, o X passou à frente do Instagram Número de ataques por rede e participação, em registros e % do total, 2026

Período Instagram X Total
16 de agosto a 4 de outubro (50 dias) 8.768 (61,8%) 5.414 (38,2%) 14.182
27 de setembro a 4 de outubro (8 dias) 1.233 (47,2%) 1.382 (52,8%) 2.615

Fonte: CDJor (totais do período); Poder360 (divisão por rede dos oito dias finais). Elaboração: redação.

Quem é atacado e com que mensagens

As mulheres receberam 64,8% dos ataques a jornalistas identificados individualmente, ou 2.013 dos 3.106 registros dessa categoria. Nos oito dias finais, os homens passaram a receber 55,1% desses ataques. Segundo a Abraji, o resultado foi influenciado por uma ofensiva contra o jornalista Ricardo Noblat no X.

A disputa presidencial respondeu por quase 80% dos ataques com contexto eleitoral identificado, segundo a Abraji. As mensagens incluíam insultos sexuais, ofensas misóginas e incentivo à violência física, informou a Agência Brasil. Entre as expressões recorrentes estavam “fake news”, “jornalista militante” e “imprensa golpista”.

Criticar reportagens faz parte do debate público, e a liberdade de expressão protege essa crítica. O relatório aponta outro fenômeno: ofensas em massa que buscam desacreditar e intimidar quem informa.

O que diz a Coalizão em Defesa do Jornalismo (CDJor): Segundo a Abraji, integrante da coalizão, o relatório afirma que a violência digital ultrapassa a crítica ao conteúdo jornalístico e pode se transformar em intimidação de profissionais. À Agência Brasil, a coordenadora jurídica da Abraji, Leticia Kleim, disse que o resultado disso “gera um prejuízo coletivo à sociedade”.

O que isso significa

Os números indicam que os ataques acompanharam a campanha e subiram sobretudo antes da reta final. O padrão coincide com a intensificação da disputa, mas o levantamento não mostra qual fato provocou cada aumento.

Na reta final, os ataques seguiram num patamar alto, sem nova escalada. O segundo turno da eleição presidencial está marcado para 25 de outubro. Nos dados consultados, não há medição dos efeitos desses ataques sobre o trabalho dos jornalistas.

Como fizemos: Usamos os totais por período da CDJor sobre ataques no X e no Instagram, de 16 de agosto a 4 de outubro de 2026, acessados em 20 de outubro de 2026. Conferimos os números nos boletins da coalizão e em reportagens da Agência Brasil, da Abraji e do Poder360, sem conseguir abrir o PDF do relatório. A divisão por rede dos oito dias finais (1.382 no X e 1.233 no Instagram) vem do Poder360 e confere com o total. As médias, a alta de 74% e a parcela de 90% são cálculos nossos, feitos dividindo cada total pelos dias do período; os dados contam registros, não pessoas, e não há valores em dinheiro, logo não houve correção pela inflação.

Correção: Uma versão anterior deste texto dizia, no título, que os ataques cresceram 74% na reta final. O índice compara a média do início da campanha com a média dos oito dias finais. Pelos boletins da CDJor, cerca de 90% dessa alta já tinha ocorrido até 12 de setembro.

Fontes