Religião

Em outubro, TSE mandou remover posts contra Lula e contra Flávio

A ordem para apagar o post de Flávio sobre igrejas veio oito dias depois; a queda entre evangélicos é de junho.

Fachada do edifício-sede do Tribunal Superior Eleitoral, em Brasília, com paredes de concreto e vidro e faixa de grama à frente.
Sede do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em Brasília (foto de arquivo, novembro de 2020).Foto: Roque de Sá / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Na sexta-feira (16), a ministra Estela Aranha, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), deu três horas para Flávio Bolsonaro apagar um post. Candidato à Presidência pelo Partido Liberal (PL), ele publicou o texto na rede social X em 8 de outubro. O post dizia “Lula não feche minha igreja” ao lado de uma imagem de pessoas em oração.

A ordem veio oito dias depois da publicação. Em outubro, o TSE tomou três decisões sobre publicações contra Lula e contra Flávio. Juntas, mostram um critério comum: a publicação sai quando falta base factual ou identificação do conteúdo.

A decisão atendeu a uma representação, uma queixa formal, da coligação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (Partido dos Trabalhadores, PT). Para a ministra, a frase foi escrita como pedido, mas deve ser avaliada no contexto eleitoral. Ela afirmou que o post apresentava uma ameaça à liberdade religiosa “sem apontar nenhum fato que sustente a ideia de que o presidente pretenda fechar igrejas”.

A acusação é antiga. Em 2022, circularam tuítes falsos atribuídos a Lula e um vídeo editado para alterar o contexto de suas falas, segundo o coletivo de checagem Bereia. Naquele ano, o plenário do TSE mandou remover conteúdos do mesmo teor, por serem “informação sabidamente inverídica”.

Oito milhões de visualizações em cinco horas

Na noite de 8 de outubro, a frase dominou o X. Entre 17h05 e 22h25, segundo o Bereia, a frase somou cerca de 28 mil posts e oito milhões de visualizações. O impulso veio do deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) e de perfis do PL, segundo a checagem.

Dois dias depois, no Maracanãzinho, no Rio, o bispo Samuel Ferreira conduziu 14 repetições de “irmão vota em irmão”, segundo o Jornal de Brasília. A Associação Movimento Brasil Laico acionou a Procuradoria-Geral Eleitoral (PGE) contra Flávio, o bispo e a igreja, por suposta propaganda eleitoral irregular. Ao ser chamado ao púlpito, Flávio respondeu: “O bispo não pediu, mas a igreja está pedindo”. O bispo disse não ter pedido votos.

A mesma régua para os dois lados

Em 8 de outubro, o TSE mandou retirar, por unanimidade, três posts de Flávio publicados em 30 e 31 de maio, segundo a CNN Brasil. Um tinha imagem de Lula simulada com inteligência artificial (IA), sem identificação. Os outros dois ligavam Lula ao Primeiro Comando da Capital (PCC) e ao Comando Vermelho (CV), sem base factual mínima. A tabela resume as três decisões de outubro.

Em outubro, o TSE mandou remover posts contra os dois candidatos Decisões do TSE em outubro de 2026, por data da decisão

Data da decisão Publicação Resultado
8 de outubro Três posts de Flávio: vídeo com IA de Lula e dois ligando Lula ao PCC e ao CV Remoção, por unanimidade
15 de outubro Post no Instagram que liga Flávio ao CV Remoção mantida, por unanimidade
16 de outubro Post de Flávio, de 8 de outubro, com “Lula não feche minha igreja” Prazo de três horas para apagar

Fonte: TSE; CNN Brasil. Elaboração: redação.

Em 15 de outubro, o tribunal manteve, por unanimidade, a remoção do post que associava Flávio ao CV. Segundo o PL, que apresentou a queixa, o inquérito, uma investigação formal, ligado a esse caso foi arquivado em 2022. Nas três decisões, o tribunal apontou falta de base factual ou de identificação do conteúdo. Até o julgamento definitivo da ação, Flávio ficou proibido de republicar o conteúdo ou versões substancialmente idênticas.

Entre evangélicos, a queda veio antes do caso

O instituto Quaest mostrou Flávio com 61% da intenção de voto entre evangélicos em maio, contra 24% de Lula. Em junho, ele caiu para 52% e Lula subiu para 31%. Em outubro, com entrevistas de 10 a 13 de outubro, o placar foi de 60% a 28%. O gráfico mostra as três pesquisas.

Gráfico de barras mostra que Flávio Bolsonaro tinha 61% entre evangélicos em maio, caiu para 52% em junho e voltou a 60% em outubro; Lula foi de 24% para 31% e depois 28% Fonte: pesquisas Quaest de maio, junho e outubro de 2026, divulgadas pelo Poder360, pela Agência Pública e pelo Times Brasil. Junho: margem de erro de 2 pontos percentuais no total e de 3 a 5 em subgrupos, com confiança de 95%. Outubro: margem de 2 pontos no total. Maio: margem não localizada. Elaboração: redação.

A queda de Flávio entre maio e junho foi de 9 pontos percentuais, cerca de 15% do que ele tinha. A distância para Lula encolheu de 37 para 21 pontos e voltou a 32 em outubro. A pesquisa de junho foi feita cerca de quatro meses antes da decisão sobre o post. Os dados não medem o efeito das decisões do TSE sobre o voto.

O que diz Flávio Bolsonaro: No culto de 10 de outubro, segundo o Jornal de Brasília, ele afirmou: “O bispo não pediu, mas a igreja está pedindo”. Sobre a decisão do TSE, não há resposta registrada do candidato ou da campanha nas reportagens consultadas.

O que isso significa

Os dados mostram um padrão. O TSE mandou remover posts de ambos os lados com o mesmo critério: falta de base factual ou de identificação. A ordem sobre o post de igrejas veio oito dias depois, mas a queda de Flávio entre evangélicos é anterior a ele.

Seguem em aberto o pedido à PGE, a alegação do PL sobre o caso de 2022 e o segundo turno, em 25 de outubro. Nenhum dado consultado liga a decisão do TSE a uma mudança de voto.

Como fizemos: Usamos reportagens da CNN Brasil, do Coletivo Bereia, do Jornal de Brasília, da Agência Pública, do ICL Notícias, do Poder360 e do Times Brasil, além de decisões do TSE de outubro de 2026, conferidas nas reportagens citadas e nas notas do portal do tribunal, acessadas em 21 de outubro de 2026. Calculamos as diferenças em pontos percentuais, a queda relativa (9 de 61 pontos, cerca de 15%) e os oito dias entre a publicação e a ordem. Não há valores em reais, então não houve correção pela inflação. Os dados não mostram o alcance do post depois da decisão nem a causa das variações; a margem de erro da pesquisa de maio não foi localizada.

Correção: Uma versão anterior deste texto dizia que a Associação Movimento Brasil Laico pediu ao Ministério Público o cancelamento da candidatura de Flávio e a revisão da imunidade tributária da igreja. O pedido foi apresentado à Procuradoria-Geral Eleitoral, que deve avaliar uma ação para cassar o registro ou o diploma de Flávio. A associação também pede que o caso seja levado à Receita Federal, que poderia suspender a imunidade tributária da denominação.

Fontes