Religião

Facção carioca é acusada de expulsar religiões afro; casos seguem sem condenação

Segundo a polícia, o TCP expulsa religiões afro de cinco favelas do Rio; nas três operações com igrejas citadas, não há condenação registrada.

Quatro líderes religiosos do candomblé posam juntos, em ambiente interno, durante cerimônia em Brasília.
Líderes religiosos do candomblé participam da cerimônia de criação do Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, em Brasília, em janeiro de 2008 (foto de arquivo).Foto: Elza Fiúza / Agência Brasil / Wikimedia Commons (CC BY 3.0 BR)

Em 28 de setembro de 2026, homens armados interceptaram dois ônibus escolares na Linha Vermelha, no Rio, e os deixaram atravessados na pista. Segundo a Super Rádio Tupi, cerca de 120 alunos estavam nos ônibus. Ninguém ficou ferido.

Segundo informações preliminares da polícia, o chefe do tráfico no Complexo de Israel, Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão, ordenou o ataque. Em três casos, a polícia ou o Ministério Público apontam o uso de igrejas ou da fé para fins criminosos. Nenhum deles tem condenação registrada nas reportagens consultadas.

O Terceiro Comando Puro (TCP) é uma facção do Rio, rival do Comando Vermelho (CV). Segundo a BBC, desde 2016 o grupo domina cinco favelas da zona norte, que chama de “Complexo de Israel”. Foram pintadas bandeiras de Israel nas paredes, e Peixão adotou o apelido de Arão, irmão de Moisés. Segundo a CartaCapital, ele é um dos criminosos mais procurados do Rio e nunca foi preso.

Proibições religiosas e ataque aos ônibus

Em março de 2025, o então chefe da Polícia Civil, delegado Felipe Curi, disse que Peixão “impõe uma ditadura religiosa”. Segundo ele, Peixão “expulsa pessoas que possuem religiões afro, candomblé, espiritismo”. Em algumas favelas, chegou a ser proibido o uso de roupas brancas, marca dos cultos de matriz africana.

Segundo a CartaCapital, as primeiras vítimas foram as religiões de matriz africana. Terreiros são as casas de culto dessas religiões. A pastora e pesquisadora Viviane Costa, autora do livro Traficantes evangélicos, é citada pela BBC. Segundo a BBC, ela afirma que a expressão religiosa de fés não evangélicas foi proibida no complexo, e que muitas casas de umbanda e candomblé foram destruídas e queimadas.

Segundo O Tempo, informações preliminares da polícia apontam que Peixão ordenou o ataque, executado por integrantes do TCP. A Tropa do Arão, grupo de subordinados dele, não aparece como autora. Para o comandante do Batalhão de Policiamento em Vias Expressas (BPVE), a ação seria uma resposta a uma operação na Maré, segundo a Super Rádio Tupi. Após o episódio de outubro de 2024, a Polícia Civil passou a investigar Peixão por terrorismo.

Igrejas em três operações

Em fevereiro de 2023, o Ministério Público do Rio Grande do Norte (MP-RN) prendeu um casal de pastores. O homem é irmão de um chefe do Primeiro Comando da Capital (PCC). Segundo a investigação, eles teriam aberto sete igrejas para movimentar mais de R$ 23 milhões.

Em julho de 2026, a Operação Fariseus, da Polícia Civil de Mato Grosso, mirou dois pastores investigados. Segundo a polícia, eles usavam um projeto de evangelização em presídios para ajudar o Comando Vermelho (CV) a trocar recados e movimentar dinheiro. A filha do casal está presa preventivamente.

Três operações ligam igrejas ou fé ao crime; nenhuma tem condenação registrada Casos de 2023 a 2026, segundo as reportagens consultadas

Caso Alegação Situação registrada
Operação Plata (RN), fev. 2023 Casal de pastores teria aberto 7 igrejas para movimentar mais de R$ 23 milhões Casal preso em 2023; pastor investigado
Operação Fariseus (MT), jul. 2026 Pastores teriam usado projeto em presídios para ajudar o CV Pastores investigados; filha presa preventivamente
Complexo de Israel (RJ), set. 2026 Chefe do TCP teria ordenado ataque a dois ônibus escolares Investigado por terrorismo; nunca preso

Fonte: O Liberal (Operação Plata), Minuto MT (Operação Fariseus), O Tempo e CartaCapital (Complexo de Israel). Valores como apresentados nas reportagens. Elaboração: redação.

Uma facção nacional e um debate sobre o nome

No início de novembro de 2025, a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) informou ao Congresso que o TCP é o “terceiro grupo emergente no contexto nacional”. Segundo a BBC, o grupo fica atrás do CV e do PCC, e chegou a nove estados além do Rio no último ano, ou dez no total. A pesquisadora Viviane Costa prefere o termo “narcoreligião” a “narcopentecostalismo”, que, para ela, sugere exclusividade do movimento pentecostal. “A presença da religião na estrutura do crime não é algo novo”, disse ela à Agência Brasil em 2023.

O que diz Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão: A reportagem não localizou manifestação dele sobre essas acusações nas fontes consultadas. As acusações citadas vêm de investigações da polícia e do Ministério Público, e ainda não foram julgadas.

O que isso significa

A Constituição garante, no artigo 5º, a liberdade de consciência e de crença e o livre exercício dos cultos. Segundo as reportagens consultadas, essa garantia não é exercida nas comunidades do Complexo de Israel.

Dois pontos seguem em aberto: se a Justiça confirmará a ordem atribuída a Peixão e como terminarão as investigações em outros estados. Até lá, são alegações de polícia e de Ministério Público, não condenações.

Como fizemos: Usamos reportagens da CartaCapital, da BBC, de O Tempo, da Agência Brasil, de O Liberal, do Minuto MT e da Super Rádio Tupi, além do texto da Constituição de 1988, acessados em 21 de outubro de 2026. A tabela reúne só o que essas reportagens registram sobre três casos, de 2023 a 2026, sem cálculo estatístico. Os valores não foram corrigidos pela inflação, porque não há comparação entre anos, e os dados não medem quantos terreiros ou pessoas foram afetados. As fontes divergem sobre a origem do complexo: 2016, segundo a BBC, e a pandemia, segundo O Tempo.

Correção: Uma versão anterior deste texto atribuía à Polícia Civil a ordem para o ataque aos ônibus e à Tropa de Arão a autoria; o correto é que a reportagem de O Tempo cita informações preliminares da polícia e atribui a execução a integrantes do TCP. Também dizia que a facção atua em nove estados; o correto é nove além do Rio, ou dez no total. A fala da Abin foi trocada pelo texto exato: “terceiro grupo emergente no contexto nacional”.

Fontes