Religião

Religião no tráfico não é exclusiva dos pentecostais, diz pesquisadora

Pesquisadora rejeita o termo 'narcopentecostalismo'; casos de SP, RN e MT citam pastores, mas as fontes não trazem dado nacional.

Templo central da Assembleia de Deus em Nossa Senhora dos Remédios, no Piauí.
Templo da Assembleia de Deus em Nossa Senhora dos Remédios (PI), em foto de arquivo de 2017: para a pesquisa, o crime que usa a fé não autoriza suspeita sobre todo o pentecostalismo.Foto: Luiz Rego Neto / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Em 28 de setembro de 2026, criminosos do Terceiro Comando Puro (TCP) interceptaram dois ônibus escolares na Linha Vermelha, no Rio. Segundo informações preliminares da polícia, a ação foi ordenada por Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão, chefe do tráfico no Complexo de Israel. Ninguém ficou ferido, informou O Tempo.

A pastora pentecostal e cientista da religião Viviane Costa rejeita o termo “narcopentecostalismo”. Para ela, o rótulo “dá uma ideia de ineditismo ou de exclusividade” do pentecostalismo na relação com o crime. Os casos mostram o problema, mas não permitem medir seu tamanho.

Viviane Costa é pastora pentecostal, cientista da religião e autora do livro Traficantes evangélicos (2023). Ela começou a dar aulas de teologia nas favelas de Parada de Lucas e Cidade Alta por volta de 2015 e 2016, no Complexo de Israel. Ali, segundo ela, imagens de São Jorge nos muros foram trocadas por mensagens evangélicas, como “Jesus é o dono do lugar”. Segundo a BBC News Brasil, ela também descreveu casas de umbanda e candomblé “destruídas e queimadas” no território.

O Complexo de Israel reúne cinco favelas da zona norte do Rio, e quem domina a área é Peixão, segundo a CartaCapital. O chefe da Polícia Civil do Rio, Felipe Curi, disse que ele “impõe uma ditadura religiosa”, segundo a mesma reportagem. Alguns relatos dizem que Peixão é pastor, mas a informação não foi confirmada. Até dezembro de 2025, as reportagens localizadas diziam que ele nunca tinha sido preso.

Um grupo em expansão e três casos

Em novembro de 2025, o coordenador-geral da Abin, Pedro Souza Mesquita, disse a uma comissão do Congresso que o TCP é o “terceiro grupo emergente” do país. Levantamento da Abin, citado pela BBC News Brasil, diz que a facção se expandiu para nove estados além do Rio. São eles Espírito Santo, Minas Gerais, Goiás, Bahia, Ceará, Amapá, Acre, Mato Grosso do Sul e Rio Grande do Sul.

Outros casos ligam pastores ou igrejas a lavagem de dinheiro e apoio a facções. A Tabela 1 resume três deles; são alegações de investigações, não decisões judiciais. As fontes consultadas não trazem manifestação de Peixão nem dos pastores citados.

Três operações de 2023 a 2026 citam pastores ou igrejas Casos citados, por local e data; valores e acusações são alegações de investigações

Operação (local, data) O que as investigações apontam Situação na última reportagem consultada
Plata (SP e RN, fev. 2023) Pastor, irmão de líder do PCC, investigado com a esposa; sete igrejas teriam sido abertas; movimentação de mais de R$ 23 milhões, segundo a polícia Pastores presos em Sorocaba (SP), segundo O Liberal
Mafiusi (nacional, mar. 2025) Igreja de Valdemiro Santiago citada em transações de grande valor; um delator afirmou que dinheiro era “esquentado” ali A PF não incluiu o pastor entre os indiciados nessa fase
Fariseus (MT, jul. 2026) Recados entre presos e pessoas de fora; dinheiro movimentado por contas de familiares e de terceiros Filha missionária presa preventivamente; pais, pastores, investigados

Fontes: O Liberal (15/2/2023); O Povo, com dados da PF (14/3/2025); Minuto MT (jul. 2026). Elaboração: redação.

O que o Censo permite medir

O Censo 2022 contou 47,4 milhões de evangélicos, ou 26,9% das pessoas com 10 anos ou mais. Em 2010, eram cerca de 35 milhões, ou 21,6%. Pela nossa conta, o grupo cresceu 12,4 milhões de pessoas, uma alta de 35%, e sua fatia subiu 5,3 pontos percentuais.

Evangélicos passaram de 21,6% para 26,9% da população em 12 anos Pessoas de 10 anos ou mais; milhões de pessoas e percentual, 2010 e 2022

Ano Evangélicos (milhões) % da população de 10 anos ou mais
2010 35,0 21,6%
2022 47,4 26,9%
Variação +12,4 (+35%) +5,3 pontos percentuais

Fonte: IBGE, Censo Demográfico 2022, resultados preliminares da amostra (divulgados em 6/6/2025). Elaboração: redação, com cálculo próprio na linha de variação.

Esses números medem a religião, não o crime. As fontes consultadas não citam nenhum levantamento nacional sobre igrejas e atividade criminosa. Os dados são de uma amostra preliminar do IBGE e podem ser revisados.

Precisão contra a generalização

A própria Viviane Costa separa os casos. Na entrevista, ela afirma: “Há também outras igrejas, que não representam a maioria, que se envolvem em alguma medida com a dinâmica do crime.” A entrevista não traz números nacionais sobre o tema.

Os casos citados envolvem algumas pessoas e algumas igrejas. Eles não permitem concluir sobre os 47,4 milhões de evangélicos do país. Quando um caso de uma favela do Rio vira rótulo para toda uma fé, a suspeita passa a atingir fiéis que não aparecem em nenhum dos casos.

O que diz a pesquisadora Viviane Costa: Ela discorda do termo “narcopentecostalismo”, porque ele dá ideia de exclusividade do pentecostalismo, o que “não é uma realidade”. Prefere o termo “narcoreligião”, para pensar de forma mais ampla o papel das identidades religiosas no tráfico. Fonte: entrevista à Agência Brasil, publicada em 25 de junho de 2023.

O que isso significa

Os casos citados aparecem em ao menos quatro estados: São Paulo, Rio Grande do Norte, Mato Grosso e Rio de Janeiro. Nas reportagens consultadas, nenhuma decisão judicial final sobre eles aparece.

Em aberto estão a investigação de terrorismo contra Peixão, que a Polícia Civil passou a conduzir após um caso separado de outubro de 2024, e a análise do material apreendido em Mato Grosso. Sem um levantamento nacional, a discussão sobre o tamanho desse fenômeno segue presa a casos isolados.

Como fizemos: Usamos a entrevista de Viviane Costa à Agência Brasil (25/06/2023), reportagens de CartaCapital, BBC News Brasil, O Tempo, O Liberal, O Povo e Minuto MT, e os resultados preliminares do Censo 2022 do IBGE, acessados em 20/10/2026; os dados das tabelas estão salvos em CSV. A diferença entre 2010 e 2022 é nosso cálculo sobre os números da amostra preliminar: +12,4 milhões de evangélicos, +35% e +5,3 pontos percentuais. Os casos policiais são alegações de investigações, não decisões judiciais, e os dados não medem quantas igrejas ou pessoas se envolvem com o crime. A página da Agência Gov estava indisponível em 20/10/2026 por causa da legislação eleitoral, e o PDF do IBGE não pôde ser lido integralmente; os valores foram conferidos em reproduções do mesmo release.

Correção: Uma versão anterior deste texto apresentava a entrevista à Agência Brasil como recente; ela foi publicada em 25 de junho de 2023. Dizia que a facção atua em nove estados; o correto é que ela se expandiu para nove estados além do Rio. Atribuía ao grupo “Tropa do Arão” o ataque aos ônibus; O Tempo atribui a ação a criminosos do TCP, por ordem de Peixão, segundo a polícia. Afirmava que Peixão se apresenta como pastor evangélico; há apenas relatos de que ele é pastor. Dizia que imagens de santos católicos foram proibidas; a CartaCapital fala na proibição de festas católicas de junho. Dizia que a Operação Plata ocorreu no Rio Grande do Norte; as prisões foram em Sorocaba (SP), e as igrejas foram abertas em SP e RN. Dizia que não houve denúncia contra o pastor da Igreja Mundial; a reportagem de março de 2025 informa que a PF não o incluiu entre os indiciados naquela fase.

Fontes