Plano de Flávio não trata do crime que usa a fé
O plano prevê cinco presídios e mais de 1 milhão de câmeras, mas não cita igreja, fé ou terreiros nos textos consultados.

No Rio, a facção Terceiro Comando Puro (TCP), liderada por Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão, domina cinco comunidades da zona norte. Segundo a pesquisadora Viviane Costa, citada pela BBC News Brasil, muitas casas de umbanda e candomblé foram destruídas e queimadas no território.
Em outros estados, investigações apontaram igrejas usadas para lavar dinheiro de facções. É o que chamamos aqui de crime que usa a fé. O plano de governo do senador Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal (PL), trata de facções, mas não cita igrejas, fé nem terreiros. Comparamos o plano com esses casos e não encontramos nenhum deles no texto.
Flávio Bolsonaro é senador pelo Rio de Janeiro e candidato à Presidência no segundo turno, marcado para 25 de outubro. Em março de 2026, em evento partidário em Rondônia, ele defendeu classificar o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas. O plano de governo foi registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
O que o plano propõe contra as facções
O capítulo de segurança, que abre o plano, promete declarar PCC, CV e milícias como “organizações narcoterroristas”. A estratégia inclui “vamos seguir o dinheiro do crime”, com bloqueio de bens e combate à lavagem.
O plano também prevê cinco novos presídios de segurança máxima “no modelo adotado por El Salvador” e meio milhão de vagas prisionais em quatro anos. Propõe ainda reduzir a maioridade penal de 18 para 16 anos e criar um sistema nacional de reconhecimento facial com mais de 1 milhão de câmeras.
A frase mais dura do capítulo diz: “Bandido armado com fuzil na mão vai ser abatido pelas forças de segurança.”
Quatro casos, nenhum deles no plano
Em fevereiro de 2023, a Operação Plata, do Ministério Público do Rio Grande do Norte (MPRN), prendeu um casal de pastores suspeito de lavar dinheiro do PCC. Segundo o Ministério Público de São Paulo, o casal abriu sete igrejas usadas em atividades ilícitas. A investigação apontou que o esquema teria movimentado mais de R$ 23 milhões, em valores da época.
Em março de 2025, a Operação Mafiusi, da Polícia Federal (PF), mencionou a Igreja Mundial do Poder de Deus, do pastor Valdemiro Santiago, em transações financeiras suspeitas. Nenhum dos citados havia sido indiciado até 14 de março daquele ano. O Brasil de Fato informou ter tentado contato com a igreja, sem resposta.
Em julho de 2026, a Operação Fariseus, da Polícia Civil de Mato Grosso, investigou dois pastores. Segundo a polícia, eles usaram um projeto de evangelização em presídios para levar recados e dinheiro ao Comando Vermelho. A filha de um deles foi presa preventivamente, e a reportagem não cita denúncia do Ministério Público. A tabela abaixo resume os quatro casos e mostra que nenhum aparece no plano.
Nenhum dos quatro casos aparece no plano de governo Situação de cada caso segundo as fontes citadas, de 2023 a 2026
| Caso | Situação segundo as fontes | No plano? |
|---|---|---|
| Operação Plata, RN e SP (2023) | Casal de pastores preso sob suspeita de lavar dinheiro do PCC | Não |
| Operação Mafiusi, PF (2025) | Nenhum dos citados indiciado até março de 2025 | Não |
| Operação Fariseus, MT (2026) | Dois pastores investigados; uma pessoa presa preventivamente | Não |
| Complexo de Israel, RJ | Terreiros fechados ou destruídos, segundo pesquisadores; sem contagem oficial | Não |
Fontes: O Liberal (2023); Brasil de Fato (2025); Minuto MT (2026); BBC News Brasil (2025); SBT News e Atlas Público (plano). Elaboração: redação.
O que os dados não mostram
Nas fontes consultadas, não há número nacional sobre o crime que usa a fé. Em entrevista à Agência Brasil, a pastora e cientista da religião Viviane Costa, autora de Traficantes evangélicos, trata o fenômeno como real, com base em observações no Rio.
A Agência Brasileira de Inteligência (Abin) disse a uma comissão do Congresso, no início de novembro de 2025, que o TCP é o terceiro grupo emergente no país. Atrás do CV e do PCC, o grupo está presente em nove outros estados, além do Rio, segundo a Abin.
Sobre o plano, o termo mais próximo de uma referência religiosa é “a vida desde a concepção”, citada na seção sobre mulheres. É uma posição de valores, não uma menção à fé nem a igrejas.
O que diz a campanha de Flávio Bolsonaro: O plano de governo classifica PCC, CV e milícias como “organizações narcoterroristas” e promete “seguir o dinheiro do crime”. Nos trechos consultados, o plano não trata de igrejas, fé ou perseguição religiosa. A reportagem não localizou manifestação da campanha sobre o crime que usa a fé nas fontes consultadas.
O que isso significa
Os dados mostram uma lacuna entre o problema documentado e a proposta. O plano combate as facções pelo lado penal e financeiro, mas não diz como agir quando grupos usam igrejas para lavar dinheiro ou impõem regras religiosas em seus territórios.
Quanto o fenômeno atinge, ainda não se sabe, porque não há contagem oficial. Quem vencer a eleição de 25 de outubro vai decidir se o tema entra na política de segurança e de liberdade religiosa.
Como fizemos: Usamos o plano de governo de Flávio Bolsonaro (PL), registrado no TSE. Lemos os trechos publicados pelo SBT News e pelo Atlas Público, acessados em 20 de outubro de 2026, porque não conseguimos abrir o documento completo. Os casos vêm de reportagens citadas em Fontes, também acessadas em 20 de outubro de 2026, e buscamos termos religiosos (igreja, fé, religião, evangélico, terreiro) nos textos disponíveis. Não há correção pela inflação, porque cada valor é da época do caso. Os dados não mostram quantos terreiros foram atingidos, pois não encontramos contagem oficial.
Correção: A versão anterior dizia que a facção atuava em nove estados. O correto é que a Abin contou nove estados além do Rio. A versão também atribuía à Agência Brasil a informação sobre terreiros destruídos no Rio; ela está na BBC News Brasil. Por fim, a ligação entre o grupo de Peixão e ônibus escolares interceptados no Rio foi retirada, porque a atribuição à polícia não foi confirmada nas reportagens consultadas.
Fontes
- Segurança pública: veja as propostas de Flávio na íntegra — SBT News (acesso em 20 de outubro de 2026)
- Planos de governo 2026 — Atlas Público (acesso em 20 de outubro de 2026)
- Flávio Bolsonaro defende classificar PCC e CV como terroristas — Metrópoles
- Flávio Bolsonaro e Lula disputarão segundo turno em 25 de outubro — Correio da Manhã (acesso em 20 de outubro de 2026)
- A facção “evangélica” que emerge como terceira força do crime organizado do Brasil — BBC News Brasil via O Povo
- A expansão pelo Brasil dos traficantes que se veem como “soldados de Jesus” — BBC News Brasil via O Povo
- Quem é Peixão, o traficante evangélico dono de um império religioso criminal no Rio — CartaCapital
- Pastores são presos por usar igrejas para lavar dinheiro do PCC — O Liberal
- Pastores e filha são alvo por elo com o Comando Vermelho — Minuto MT
- Pastor Valdemiro Santiago é citado em investigação da PF que apura lavagem do PCC — Brasil de Fato
- Pesquisa aborda relação entre fé e crime no contexto do tráfico — Agência Brasil
