Religião

Plano de Flávio não trata do crime que usa a fé

O plano prevê cinco presídios e mais de 1 milhão de câmeras, mas não cita igreja, fé ou terreiros nos textos consultados.

Fachada do Palácio do Congresso Nacional, em Brasília, com as duas torres e as cúpulas dos plenários da Câmara e do Senado.
O Congresso Nacional, em Brasília: propostas contra o crime organizado só viram lei se passarem pelas duas Casas (foto de arquivo de 2019).Foto: Leonardo Sá / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

No Rio, a facção Terceiro Comando Puro (TCP), liderada por Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão, domina cinco comunidades da zona norte. Segundo a pesquisadora Viviane Costa, citada pela BBC News Brasil, muitas casas de umbanda e candomblé foram destruídas e queimadas no território.

Em outros estados, investigações apontaram igrejas usadas para lavar dinheiro de facções. É o que chamamos aqui de crime que usa a fé. O plano de governo do senador Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal (PL), trata de facções, mas não cita igrejas, fé nem terreiros. Comparamos o plano com esses casos e não encontramos nenhum deles no texto.

Flávio Bolsonaro é senador pelo Rio de Janeiro e candidato à Presidência no segundo turno, marcado para 25 de outubro. Em março de 2026, em evento partidário em Rondônia, ele defendeu classificar o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas. O plano de governo foi registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

O que o plano propõe contra as facções

O capítulo de segurança, que abre o plano, promete declarar PCC, CV e milícias como “organizações narcoterroristas”. A estratégia inclui “vamos seguir o dinheiro do crime”, com bloqueio de bens e combate à lavagem.

O plano também prevê cinco novos presídios de segurança máxima “no modelo adotado por El Salvador” e meio milhão de vagas prisionais em quatro anos. Propõe ainda reduzir a maioridade penal de 18 para 16 anos e criar um sistema nacional de reconhecimento facial com mais de 1 milhão de câmeras.

A frase mais dura do capítulo diz: “Bandido armado com fuzil na mão vai ser abatido pelas forças de segurança.”

Quatro casos, nenhum deles no plano

Em fevereiro de 2023, a Operação Plata, do Ministério Público do Rio Grande do Norte (MPRN), prendeu um casal de pastores suspeito de lavar dinheiro do PCC. Segundo o Ministério Público de São Paulo, o casal abriu sete igrejas usadas em atividades ilícitas. A investigação apontou que o esquema teria movimentado mais de R$ 23 milhões, em valores da época.

Em março de 2025, a Operação Mafiusi, da Polícia Federal (PF), mencionou a Igreja Mundial do Poder de Deus, do pastor Valdemiro Santiago, em transações financeiras suspeitas. Nenhum dos citados havia sido indiciado até 14 de março daquele ano. O Brasil de Fato informou ter tentado contato com a igreja, sem resposta.

Em julho de 2026, a Operação Fariseus, da Polícia Civil de Mato Grosso, investigou dois pastores. Segundo a polícia, eles usaram um projeto de evangelização em presídios para levar recados e dinheiro ao Comando Vermelho. A filha de um deles foi presa preventivamente, e a reportagem não cita denúncia do Ministério Público. A tabela abaixo resume os quatro casos e mostra que nenhum aparece no plano.

Nenhum dos quatro casos aparece no plano de governo Situação de cada caso segundo as fontes citadas, de 2023 a 2026

Caso Situação segundo as fontes No plano?
Operação Plata, RN e SP (2023) Casal de pastores preso sob suspeita de lavar dinheiro do PCC Não
Operação Mafiusi, PF (2025) Nenhum dos citados indiciado até março de 2025 Não
Operação Fariseus, MT (2026) Dois pastores investigados; uma pessoa presa preventivamente Não
Complexo de Israel, RJ Terreiros fechados ou destruídos, segundo pesquisadores; sem contagem oficial Não

Fontes: O Liberal (2023); Brasil de Fato (2025); Minuto MT (2026); BBC News Brasil (2025); SBT News e Atlas Público (plano). Elaboração: redação.

O que os dados não mostram

Nas fontes consultadas, não há número nacional sobre o crime que usa a fé. Em entrevista à Agência Brasil, a pastora e cientista da religião Viviane Costa, autora de Traficantes evangélicos, trata o fenômeno como real, com base em observações no Rio.

A Agência Brasileira de Inteligência (Abin) disse a uma comissão do Congresso, no início de novembro de 2025, que o TCP é o terceiro grupo emergente no país. Atrás do CV e do PCC, o grupo está presente em nove outros estados, além do Rio, segundo a Abin.

Sobre o plano, o termo mais próximo de uma referência religiosa é “a vida desde a concepção”, citada na seção sobre mulheres. É uma posição de valores, não uma menção à fé nem a igrejas.

O que diz a campanha de Flávio Bolsonaro: O plano de governo classifica PCC, CV e milícias como “organizações narcoterroristas” e promete “seguir o dinheiro do crime”. Nos trechos consultados, o plano não trata de igrejas, fé ou perseguição religiosa. A reportagem não localizou manifestação da campanha sobre o crime que usa a fé nas fontes consultadas.

O que isso significa

Os dados mostram uma lacuna entre o problema documentado e a proposta. O plano combate as facções pelo lado penal e financeiro, mas não diz como agir quando grupos usam igrejas para lavar dinheiro ou impõem regras religiosas em seus territórios.

Quanto o fenômeno atinge, ainda não se sabe, porque não há contagem oficial. Quem vencer a eleição de 25 de outubro vai decidir se o tema entra na política de segurança e de liberdade religiosa.

Como fizemos: Usamos o plano de governo de Flávio Bolsonaro (PL), registrado no TSE. Lemos os trechos publicados pelo SBT News e pelo Atlas Público, acessados em 20 de outubro de 2026, porque não conseguimos abrir o documento completo. Os casos vêm de reportagens citadas em Fontes, também acessadas em 20 de outubro de 2026, e buscamos termos religiosos (igreja, fé, religião, evangélico, terreiro) nos textos disponíveis. Não há correção pela inflação, porque cada valor é da época do caso. Os dados não mostram quantos terreiros foram atingidos, pois não encontramos contagem oficial.

Correção: A versão anterior dizia que a facção atuava em nove estados. O correto é que a Abin contou nove estados além do Rio. A versão também atribuía à Agência Brasil a informação sobre terreiros destruídos no Rio; ela está na BBC News Brasil. Por fim, a ligação entre o grupo de Peixão e ônibus escolares interceptados no Rio foi retirada, porque a atribuição à polícia não foi confirmada nas reportagens consultadas.

Fontes