Religião

Propaganda eleitoral apareceu em 3,2% dos cultos e missas, diz UFRJ

Pesquisa da UFRJ e da More in Common analisou 7.456 celebrações antes do primeiro turno; críticos falam em fiscalização ilegal da fé.

Bispo de vestes douradas e dois padres de branco diante de fiéis, em uma igreja de paredes brancas e detalhes amarelos, durante uma missa
Missa na Catedral de São José, em Macapá, durante a posse canônica de um bispo, em fevereiro de 2025. A foto ilustra o tipo de celebração analisada, não as igrejas do estudo.Foto: Max Renê / GEA / Wikimedia Commons (CC BY 3.0)

Entre 20 e 27 de setembro de 2026, pesquisadores analisaram 7.456 missas e cultos transmitidos pelo YouTube. Propaganda eleitoral apareceu em 237 delas, ou 3,2%, segundo o estudo. O levantamento foi feito pelo Grupo Passagens, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com a organização internacional More in Common.

O estudo virou alvo de polêmica. A Gazeta do Povo publicou em 17 de outubro que especialistas alertam para possíveis violações da liberdade religiosa. Os autores dizem que o trabalho não é fiscalização. Vale separar o que o estudo mediu do que os críticos dizem que ele faz.

Como foi o levantamento

Os pesquisadores usaram apenas transmissões públicas, segundo os autores. Ferramentas automáticas marcaram trechos com conteúdo político, e pessoas conferiram cada trecho. Foram 13.886 horas de gravações, em 25 estados e no Distrito Federal.

Pelo critério do estudo, propaganda são “todas as práticas que promovem ou atacam uma candidatura, direta ou indiretamente”. O pedido explícito de voto é só uma dessas práticas.

Os números

Nas Assembleias de Deus, a propaganda apareceu em 8,3% dos cultos. Nas igrejas batistas, em 1,4%. Nas missas católicas, em 0,7%. Mensagens cívicas, como o incentivo ao voto consciente, apareceram em 15,3% das celebrações.

A própria More in Common afirma que a amostra não é representativa. Como o estudo olhou só quem transmite na internet, os percentuais valem para o conjunto analisado, não para o país inteiro.

O que dizem os críticos

O Instituto Brasileiro de Direito e Religião (IBDR), que reúne juristas, chamou a ação de ilegal. Em nota de 14 de outubro, disse que “trata-se de fiscalização e constrangimento ilegal ao exercício do culto”. A entidade também afirmou que “a presença de observadores não configura, por si só, perturbação de culto”.

O IBDR questionou os critérios usados para classificar a fala e disse que a classificação “não equivale ao reconhecimento de crime ou abuso eleitoral”. O Instituto Isabel, em carta de repúdio, falou em “efeito intimidatório” da ampla divulgação do monitoramento. A Frente Parlamentar Evangélica também emitiu nota, segundo os autores, que questionou “as fontes de financiamento da pesquisa”.

Os autores informam vínculos. Rodrigo Toniol recebe recursos da Faperj e do CNPq, e Pablo Ortellado é diretor-executivo da More in Common Brasil.

O que diz a lei

A Constituição garante, no artigo 5º, inciso VI, “o livre exercício dos cultos religiosos” e a “proteção aos locais de culto e a suas liturgias”, na forma da lei. O artigo 19, inciso I, proíbe a União, os estados e os municípios de “embaraçar-lhes o funcionamento” das igrejas.

A Lei das Eleições (Lei 9.504/1997), no artigo 37, proíbe propaganda “de qualquer natureza” em bens de uso comum. Se um templo entra nessa categoria depende da interpretação da Justiça Eleitoral, caso a caso. Por isso o debate gira em torno do que conta como propaganda, e não da fala religiosa em si.

O que diz a equipe da pesquisa: Os autores escrevem que o objetivo “foi compreender empiricamente como temas políticos e eleitorais aparecem nas celebrações religiosas”. Segundo a Acidigital, Rodrigo Toniol disse que a pesquisa “não constitui, por si, uma investigação policial”.

O que fica em aberto

O estudo não julga padres, pastores ou fiéis, e não é uma decisão da Justiça Eleitoral. Quem decide se houve propaganda irregular é a Justiça Eleitoral, caso a caso. O IBDR diz que a classificação do estudo não equivale a crime, e os autores usam um critério amplo de propaganda.

Os dados mostram que a propaganda eleitoral nos cultos é rara entre as celebrações analisadas. A maior concentração aparece nas Assembleias de Deus, e a amostra não explica por quê.

Como fizemos: Usamos o artigo dos autores no The Conversation (20/10/2026), reportagens da Acidigital (16/10/2026), da Guiame (15/10/2026) e da Gazeta do Povo (17/10/2026), e a nota do IBDR citada por elas, acessados em 22/10/2026. Não tivemos o relatório completo do More in Common nem os dados brutos, e não fizemos cálculos próprios. Reportagens dão horas de áudio diferentes; usamos o número dos autores. A redação não enviou perguntas aos pesquisadores nem ao IBDR antes desta versão. Os textos legais são os do Planalto, conferidos em fontes secundárias.

Fontes