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Respeitar o resultado das urnas é o teste mínimo da democracia
Comentário: às vésperas do 2º turno, aceitar o resultado é o mínimo da democracia. Protestar e recorrer à Justiça são direitos; tentar impedir a posse, não.
Este texto pertence ao caderno Comentário. A análise é de quem assina e não representa necessariamente a posição do Jornal Liberdade.

Comentário. Este texto defende uma posição do Jornal Liberdade. Os fatos citados têm fonte no fim do texto.
No domingo (4 de outubro), o primeiro turno terminou com Flávio Bolsonaro (PL) em primeiro lugar. Lula (PT) ficou em segundo, e os dois se enfrentam no segundo turno, no domingo (25 de outubro). Ao votar em São Bernardo do Campo, Lula disse: “O povo é soberano e o resultado do povo será acatado por todos os 215 milhões de brasileiros”, segundo o Bahia Notícias.
Essa frase deveria valer para qualquer resultado. Quem vence governa, e quem perde faz oposição. Não existe um terceiro caminho entre as duas coisas, a não ser romper a democracia.
A urna e a Justiça Eleitoral têm três décadas de história
A urna eletrônica estreou nas eleições municipais de 1996 e chegou a todo o eleitorado em 2000, segundo a Rádio Senado. Em 2026, a Justiça Eleitoral disponibilizou 563 mil urnas para a votação, de acordo com a mesma reportagem.
Contestar resultado também faz parte dessa história, e a lei prevê caminhos para isso. Depois da eleição presidencial de 2014, o PSDB fez uma auditoria própria. Em outubro de 2015, o partido disse que não houve fraude, mas afirmou que o sistema “não permite a plena auditagem”, segundo a Exame.
Em 2022, Bolsonaro perdeu para Lula. Na noite da eleição, com 99,99% das urnas apuradas, o sistema do TSE mostrava Lula com 50,90% dos votos, segundo o Poder360. Bolsonaro só se manifestou em 1º de novembro e não reconheceu a derrota de forma direta. Disse: “Enquanto presidente da República, continuarei cumprindo todos os mandamentos da Constituição”, segundo A Gazeta.
Essas regras mostram que o problema nunca foi contestar. O problema começa quando a contestação deixa a Justiça e vira ameaça à urna, ao juiz ou à posse.
Protesto é direito; golpe não é
Protestar é direito, desde que seja pacífico. A Constituição garante a reunião pacífica e sem armas. O Jornal Liberdade já explicou essa linha no texto protesto depois do resultado: o que é direito e o que é crime. Tentar impedir a posse de um presidente eleito é outra coisa.
Em 11 de setembro de 2025, a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) condenou Jair Bolsonaro por 4 votos a 1. A pena foi de 27 anos e 3 meses, por cinco crimes, entre eles tentativa de golpe de Estado, segundo a Mercado & Consumo. Em 25 de novembro de 2025, o STF declarou o trânsito em julgado, ou seja, a condenação ficou definitiva e não cabe mais recurso, segundo o SBT News.
Em 8 de janeiro de 2023, prédios dos Três Poderes foram invadidos e depredados em Brasília. Segundo dados do STF citados pelo jornal O Povo, em janeiro de 2026 já eram mais de mil os condenados pelos atos. A Procuradoria-Geral da República (PGR) chamou os atos de “desfecho violento” de uma atuação coordenada. Segundo o mesmo jornal, ela buscava impedir a posse do presidente eleito.
Lula já se comprometeu com a regra. Em entrevista à revista alemã Der Spiegel, publicada em 17 de abril, ele afirmou: “Quando o povo toma uma decisão, seja de direita, de esquerda ou do centro, temos que aceitar esse resultado”, segundo a Folha de Pernambuco.
Flávio deu sinais mais ambíguos. Em 21 de julho, numa reunião com embaixadores, disse que “muitas dessas máquinas que são utilizadas nas eleições brasileiras têm a mesma origem dessa empresa venezuelana”, referindo-se à Smartmatic, segundo a Tribuna de Minas. No dia seguinte, o TSE respondeu que a empresa “não forneceu nem fornece urnas eletrônicas para as eleições brasileiras”, segundo o DGABC. Na mesma semana, ele afirmou ter “integral confiança no sistema eleitoral brasileiro”, em nota.
Em 2 de agosto, no programa Canal Livre, da Band, Flávio disse: “Eu vou aceitar, vou concorrer com essas regras.” Depois do primeiro turno, comemorou o resultado e afirmou: “É o fim da era do PT”, segundo o SBT News.
Aceitar com ressalvas ainda é aceitar. Mas a fala de Flávio repete uma tese sobre as urnas que o TSE já desmentiu, e isso alimenta a dúvida de quem o ouve. Ele disse depois que não está contra as máquinas, e sim a favor de mais segurança, segundo o Jornal de Brasília.
Quem ama o Brasil aceita o resultado da urna, mesmo quando perde. Isso não impede a crítica. Quem perde pode pedir auditoria, recorrer à Justiça, protestar em paz e dizer que o resultado é ruim. O que a democracia não aceita é cercar a urna ou tentar impedir a posse. A Justiça já condenou, em definitivo, um ex-presidente por tentativa de golpe. Dois dias antes do segundo turno, esse é o recado que os candidatos precisam dar sem ambiguidade.
O que diz Flávio Bolsonaro: “Eu vou aceitar, vou concorrer com essas regras”, afirmou em entrevista ao Canal Livre, da Band, em 2 de agosto de 2026, segundo o Jornal de Brasília. Na mesma entrevista, disse esperar que o TSE seja imparcial e cobrou “mais camadas de segurança, transparência” no sistema eletrônico.
Como fizemos: Comentário da redação, baseada em reportagens e notas oficiais consultadas em 23 de outubro de 2026. Não conseguimos abrir o site do STF nem o do TSE, por isso os dados do 8 de janeiro vêm de reportagens que citam o STF, e usamos só a cifra de “mais de mil” condenados, porque os balanços publicados variam. Não fizemos cálculos próprios.
Fontes
- Utilização da urna eletrônica completa 30 anos — Rádio Senado (acesso em 23/10/2026)
- Auditoria do PSDB conclui que não houve fraude na eleição — Exame (acesso em 23/10/2026)
- Moraes ligou para Lula e Bolsonaro antes de anunciar resultado — Poder360 (acesso em 23/10/2026)
- Bolsonaro evita reconhecer derrota, mas diz respeitar Constituição — A Gazeta (acesso em 23/10/2026)
- Por 4 a 1, STF condena Bolsonaro e mais sete pela trama golpista — Mercado & Consumo (acesso em 23/10/2026)
- STF declara fim do processo e Bolsonaro pode cumprir pena por tentativa de golpe — SBT News (acesso em 23/10/2026)
- Atos de 8 de janeiro: o que aconteceu e quem foi condenado — O Povo (acesso em 23/10/2026)
- Lula registra voto em São Bernardo e diz que resultado das urnas será respeitado — Bahia Notícias (acesso em 23/10/2026)
- Quando o povo toma decisão, temos que aceitar, diz Lula sobre eventual vitória de Flávio — Folha de Pernambuco (acesso em 23/10/2026)
- Flávio Bolsonaro diz que vai aceitar resultado das urnas — Jornal de Brasília (acesso em 23/10/2026)
- Flávio Bolsonaro diz confiar nas urnas, mas não explica informação falsa — Tribuna de Minas (acesso em 23/10/2026)
- TSE diz que empresa citada por Flávio nunca produziu urnas para eleições — DGABC (acesso em 23/10/2026)
- Flávio celebra resultado e declara “fim da era do PT” — SBT News (acesso em 23/10/2026)
- Urna eletrônica brasileira UE2020 — Wikimedia Commons (domínio público) (acesso em 23/10/2026)
