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Respeitar o resultado das urnas é o teste mínimo da democracia

Comentário: às vésperas do 2º turno, aceitar o resultado é o mínimo da democracia. Protestar e recorrer à Justiça são direitos; tentar impedir a posse, não.

Este texto pertence ao caderno Comentário. A análise é de quem assina e não representa necessariamente a posição do Jornal Liberdade.

Urna eletrônica modelo UE2020, da Justiça Eleitoral, com tela apagada, teclado numérico e as teclas BRANCO, CORRIGE e CONFIRMA, sobre uma superfície branca
Urna eletrônica modelo UE2020, da Justiça Eleitoral, o equipamento usado para votar no Brasil.Foto: Antonio Augusto/Secom/TSE / Wikimedia Commons (domínio público)

Comentário. Este texto defende uma posição do Jornal Liberdade. Os fatos citados têm fonte no fim do texto.

No domingo (4 de outubro), o primeiro turno terminou com Flávio Bolsonaro (PL) em primeiro lugar. Lula (PT) ficou em segundo, e os dois se enfrentam no segundo turno, no domingo (25 de outubro). Ao votar em São Bernardo do Campo, Lula disse: “O povo é soberano e o resultado do povo será acatado por todos os 215 milhões de brasileiros”, segundo o Bahia Notícias.

Essa frase deveria valer para qualquer resultado. Quem vence governa, e quem perde faz oposição. Não existe um terceiro caminho entre as duas coisas, a não ser romper a democracia.

A urna e a Justiça Eleitoral têm três décadas de história

A urna eletrônica estreou nas eleições municipais de 1996 e chegou a todo o eleitorado em 2000, segundo a Rádio Senado. Em 2026, a Justiça Eleitoral disponibilizou 563 mil urnas para a votação, de acordo com a mesma reportagem.

Contestar resultado também faz parte dessa história, e a lei prevê caminhos para isso. Depois da eleição presidencial de 2014, o PSDB fez uma auditoria própria. Em outubro de 2015, o partido disse que não houve fraude, mas afirmou que o sistema “não permite a plena auditagem”, segundo a Exame.

Em 2022, Bolsonaro perdeu para Lula. Na noite da eleição, com 99,99% das urnas apuradas, o sistema do TSE mostrava Lula com 50,90% dos votos, segundo o Poder360. Bolsonaro só se manifestou em 1º de novembro e não reconheceu a derrota de forma direta. Disse: “Enquanto presidente da República, continuarei cumprindo todos os mandamentos da Constituição”, segundo A Gazeta.

Essas regras mostram que o problema nunca foi contestar. O problema começa quando a contestação deixa a Justiça e vira ameaça à urna, ao juiz ou à posse.

Protesto é direito; golpe não é

Protestar é direito, desde que seja pacífico. A Constituição garante a reunião pacífica e sem armas. O Jornal Liberdade já explicou essa linha no texto protesto depois do resultado: o que é direito e o que é crime. Tentar impedir a posse de um presidente eleito é outra coisa.

Em 11 de setembro de 2025, a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) condenou Jair Bolsonaro por 4 votos a 1. A pena foi de 27 anos e 3 meses, por cinco crimes, entre eles tentativa de golpe de Estado, segundo a Mercado & Consumo. Em 25 de novembro de 2025, o STF declarou o trânsito em julgado, ou seja, a condenação ficou definitiva e não cabe mais recurso, segundo o SBT News.

Em 8 de janeiro de 2023, prédios dos Três Poderes foram invadidos e depredados em Brasília. Segundo dados do STF citados pelo jornal O Povo, em janeiro de 2026 já eram mais de mil os condenados pelos atos. A Procuradoria-Geral da República (PGR) chamou os atos de “desfecho violento” de uma atuação coordenada. Segundo o mesmo jornal, ela buscava impedir a posse do presidente eleito.

Lula já se comprometeu com a regra. Em entrevista à revista alemã Der Spiegel, publicada em 17 de abril, ele afirmou: “Quando o povo toma uma decisão, seja de direita, de esquerda ou do centro, temos que aceitar esse resultado”, segundo a Folha de Pernambuco.

Flávio deu sinais mais ambíguos. Em 21 de julho, numa reunião com embaixadores, disse que “muitas dessas máquinas que são utilizadas nas eleições brasileiras têm a mesma origem dessa empresa venezuelana”, referindo-se à Smartmatic, segundo a Tribuna de Minas. No dia seguinte, o TSE respondeu que a empresa “não forneceu nem fornece urnas eletrônicas para as eleições brasileiras”, segundo o DGABC. Na mesma semana, ele afirmou ter “integral confiança no sistema eleitoral brasileiro”, em nota.

Em 2 de agosto, no programa Canal Livre, da Band, Flávio disse: “Eu vou aceitar, vou concorrer com essas regras.” Depois do primeiro turno, comemorou o resultado e afirmou: “É o fim da era do PT”, segundo o SBT News.

Aceitar com ressalvas ainda é aceitar. Mas a fala de Flávio repete uma tese sobre as urnas que o TSE já desmentiu, e isso alimenta a dúvida de quem o ouve. Ele disse depois que não está contra as máquinas, e sim a favor de mais segurança, segundo o Jornal de Brasília.

Quem ama o Brasil aceita o resultado da urna, mesmo quando perde. Isso não impede a crítica. Quem perde pode pedir auditoria, recorrer à Justiça, protestar em paz e dizer que o resultado é ruim. O que a democracia não aceita é cercar a urna ou tentar impedir a posse. A Justiça já condenou, em definitivo, um ex-presidente por tentativa de golpe. Dois dias antes do segundo turno, esse é o recado que os candidatos precisam dar sem ambiguidade.

O que diz Flávio Bolsonaro: “Eu vou aceitar, vou concorrer com essas regras”, afirmou em entrevista ao Canal Livre, da Band, em 2 de agosto de 2026, segundo o Jornal de Brasília. Na mesma entrevista, disse esperar que o TSE seja imparcial e cobrou “mais camadas de segurança, transparência” no sistema eletrônico.

Como fizemos: Comentário da redação, baseada em reportagens e notas oficiais consultadas em 23 de outubro de 2026. Não conseguimos abrir o site do STF nem o do TSE, por isso os dados do 8 de janeiro vêm de reportagens que citam o STF, e usamos só a cifra de “mais de mil” condenados, porque os balanços publicados variam. Não fizemos cálculos próprios.

Fontes