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A B3 mede o humor de 5,7 milhões de CPFs, não a legitimidade do voto

A B3 tem 5,7 milhões de CPFs na renda variável, cerca de 2,7% da população. Tratar o pânico de 26/10 como veredito sobre o voto é erro de categoria.

Este texto pertence ao caderno Comentário. A análise é de quem assina e não representa necessariamente a posição do Jornal Liberdade.

Fachada de pedra do edifício-sede da B3 na Praça Antônio Prado, em São Paulo, com o logotipo [B]³ na porta de entrada e bandeiras do Brasil e do estado de São Paulo
Fachada do edifício-sede da B3, na Praça Antônio Prado, em São Paulo, em foto de dezembro de 2021, sem relação com o pregão de 26/10.Foto: Fulviusbsas / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Na segunda-feira (26), o Ibovespa, índice das ações mais negociadas da B3, a bolsa de valores de São Paulo, fechou em 176.608,23 pontos. A queda foi de 13,88%, a maior em um dia desde março de 2020, segundo a CNN Brasil. O dólar comercial subiu 8,21%, para R$ 5,4027, segundo o Exame.

Há quem leia esses números como veredito sobre o resultado das urnas. É um erro de categoria. A Bolsa mede apostas de investidores sobre juros, câmbio e lucros. Quem decide quem governa é o voto, e ele foi dado no domingo (25).

O que o pregão mediu

A B3 acionou o circuit breaker, mecanismo que suspende os negócios quando o índice cai demais. Foi o primeiro desde 2020, segundo a CNN Brasil e a InfoMoney. Durante o dia, o Ibovespa chegou a cair 17,34%, segundo o Exame.

Os juros futuros também subiram. São taxas negociadas na B3 que mostram o que o mercado espera para os juros do país. O DI para janeiro de 2031 passou de 12,642% para 15,185%, alta de 254 pontos-base, segundo a CNN Brasil. Cem pontos-base equivalem a 1 ponto percentual.

Parte do susto vem de uma aposta que não se confirmou. Antes do resultado, segundo o Seu Dinheiro, “muitos investidores davam como certa a vitória de Flávio Bolsonaro”. Gabriel Magno, da AW Capital, disse que os investidores globais cortaram expectativas por causa de “mais 4 anos do mesmo perfil de governo”, segundo a CNN Brasil.

Há também uma preocupação com as contas públicas, e ela merece resposta com números. Segundo o Exame, o banco UBS afirmou que o governo precisa mostrar “evidências concretas de compromisso com o ajuste fiscal”. Esse é um debate de política econômica. Não é um plebiscito sobre a eleição.

Há um dado incômodo para quem usa a Bolsa como régua moral. Segundo a Gazeta do Povo, a diretora Roberta Folgueral disse que “esse tipo de manifestação coloca em dúvida a credibilidade das instituições brasileiras”. Ela se referia às falas de Flávio Bolsonaro sobre contestar o resultado. Em parte, portanto, o termômetro também registrou o ataque ao voto.

Quem votou no pregão

A B3 tinha 5,7 milhões de CPFs com investimentos em renda variável no segundo trimestre de 2026, segundo a própria bolsa. Renda variável é o grupo de aplicações cujo valor oscila, como as ações. CPF é o número de registro de cada pessoa física. O IBGE estima 214.211.951 habitantes em 1º de julho de 2026. A conta é nossa: os CPFs equivalem a cerca de 2,7% da população.

Esses investidores guardavam R$ 656,3 bilhões na bolsa, segundo a B3. Dividido pelos CPFs, dá cerca de R$ 115 mil por investidor, cálculo nosso. É uma média, não a mediana, e os textos da B3 que consultamos não trazem o recorte por faixa de renda. Por isso não afirmamos aqui quanto desse dinheiro está com os mais ricos.

Quem trabalha está em outro lugar. No trimestre de junho a agosto, 103,5 milhões de pessoas estavam ocupadas, o maior número da série, e a desocupação ficou em 5,3%, segundo o IBGE. São cerca de 18 vezes mais ocupados do que CPFs na bolsa, cálculo nosso, já que os grupos se sobrepõem. O retrato não é de céu azul: a informalidade chegou a 37,5% dos ocupados, ou 38,8 milhões de pessoas.

Emprego, salário, comércio do interior e serviços públicos não têm terminal na B3. A renda média real habitual foi de R$ 3.777, segundo o IBGE. O dólar mais caro pode encarecer insumos e importados, e é aí que o susto da Bolsa pode chegar a esse Brasil. Mas isso é consequência a acompanhar, não sentença sobre a vontade de quem votou.

A cobertura do dia não registra uma leitura formal do PT ou do governo sobre o pânico. Esta é a leitura do Jornal Liberdade. Soberania é decidir em Brasília, pelo voto, o rumo do país. Meia hora de negócios suspensos não substitui 25 de outubro.

O que fica em aberto

Ninguém sabe se a queda vai se aprofundar ou se reverter. Ações e outros ativos podem perder valor, e pânicos podem piorar. Este texto não recomenda comprar nem vender nada.

Segundo a RFI, em texto publicado pelo Terra, analistas apontam a incerteza sobre quem comandará o Ministério da Fazenda. A resposta do governo a essa dúvida dirá mais sobre os próximos meses do que o pregão de uma segunda-feira. Respeitar o mercado é ouvi-lo. Submeter o resultado das urnas a ele é outra coisa.

O que diz a B3: segundo o Exame, a bolsa afirmou ter agido “com antecedência para proteger investidores e preservar a integridade do mercado” ao suspender os negócios na abertura de 26/10.

Como fizemos: Usamos cotações de 26/10/2026 publicadas por CNN Brasil, InfoMoney e Exame; as casas decimais do dólar variam entre elas (R$ 5,4027 no Exame, R$ 5,403 na InfoMoney, R$ 5,406 na CNN). Dados de investidores vêm da B3 (2º trimestre de 2026); a população, do IBGE. A participação de 2,7% (5,7 milhões ÷ 214,2 milhões), a média de R$ 115 mil e a razão de 18 vezes (103,5 ÷ 5,7) são cálculos nossos. Não encontramos dados da B3 por faixa de renda nem declaração de PT ou governo sobre o pânico. Acessos em 26/10/2026.

Fontes