Devido processo

Ministros do STF e do TSE não veem base para anular a eleição

Flávio Bolsonaro diz que não reconhece a vitória de Lula. Segundo reportagens, ministros do STF e do TSE veem falta de base para anular a eleição.

Fachada de vidro escuro e curva do edifício-sede do Tribunal Superior Eleitoral, em Brasília, sob céu com nuvens
Edifício-sede do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em Brasília. Foto de arquivo.Foto: Alexandresena / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Na noite de domingo (25), Flávio Bolsonaro (PL) disse que não reconhece o resultado do segundo turno. Ele afirmou que vai pedir a anulação da eleição. Lula foi reeleito com 64.256.232 votos, ou 51,79% dos válidos. Flávio teve 59.826.041, ou 48,21%, com 100% das urnas apuradas.

Na segunda-feira (26), reportagens disseram que ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) não veem base para anular a eleição. Mas essa avaliação não é uma decisão em processo. Esta reportagem separa o que é decisão formal do que é apenas avaliação de ministros.

O que aconteceu no domingo

Perto das 17h, o ministro do STF Cristiano Zanin estendeu a votação até as 19h. A ordem valia para locais onde as urnas ainda estavam abertas. O TSE tinha previsto o fechamento às 17h e pausou a totalização, a soma dos votos, às 17h20.

Zanin atendeu a uma reclamação, ação que pede ao STF que faça valer suas decisões. Ele escreveu que “as duas candidaturas que disputam as eleições presidenciais no segundo turno alegaram problemas no transporte de eleitores”, segundo a Rádio Senado. Depois, ele esclareceu que a decisão valia “nos locais onde as urnas não foram fechadas”.

O que Flávio alega, e o que o TSE responde

Flávio disse que a prorrogação “muda a regra do jogo no meio do jogo”. Ele também afirmou que fiscais do PL foram retirados da sala-cofre do TSE.

O TSE chamou a afirmação de “falsa”, em nota divulgada nas primeiras horas de segunda-feira. A corte disse que a sala-cofre “não é um espaço aberto à visitação”. Segundo a nota, dois fiscais do PL acompanharam o Teste de Integridade das Urnas e visitaram a Sala de Totalização e a Sala dos Partidos Políticos. O TSE afirma ter registros dessa presença.

O presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, disse: “Não houve nenhuma alteração advinda da decisão judicial”. Ele se referia à prorrogação, segundo o texto publicado pelo O Globo.

Quanto a prorrogação pesa na conta

Segundo análise do g1 de dados do TSE, 35.521 votos foram registrados depois das 17h. Isso equivale a cerca de 0,8% da vantagem de Lula, que é de 4.430.191 votos. Mesmo que todos esses votos tivessem ido para Flávio no lugar de Lula, a diferença ainda seria de cerca de 4,36 milhões de votos. É uma hipótese para medir o tamanho do efeito, não um dado sobre o que aconteceu.

O que é decisão e o que não é

A ordem de Zanin é uma decisão formal, provisória, e ele a esclareceu depois. A nota do TSE é uma posição oficial, não um julgamento. A avaliação de que não há base para anular vem de reportagem do O Globo, que ouviu ministros dos dois tribunais sem identificá-los.

Segundo essa reportagem, o entendimento predominante é que faltam elementos para justificar a anulação. Até agora, não localizamos pedido de anulação protocolado e julgado. Uma chamada da Gazeta do Povo fala em pedido de cassação da chapa de Lula, e não de anulação. Não lemos o texto completo.

A CNN Brasil também registrou outro ponto. Ministros do TSE, sem nome, disseram que a decisão de Zanin os constrangeu e que ele interferiu em atribuição da Justiça Eleitoral. Não localizamos resposta pública de Zanin a essa crítica.

O que diz o TSE: em nota das primeiras horas de segunda-feira (26), a corte chama de falsa a afirmação sobre a sala-cofre. Segundo o TSE, o local não é aberto à visitação, e os fiscais do PL estiveram em outros espaços da apuração, com registros.

O que isso significa

O que segue em aberto é se a campanha de Flávio vai levar algum pedido à Justiça e com que objetivo. A totalização do TSE continua sendo a fonte oficial do resultado.

Pelos números disponíveis, a votação registrada depois das 17h não chega perto da vantagem de Lula. Contestar uma eleição exige fatos e provas. Sem eles, a derrota fica sem respaldo no processo eleitoral.

Como fizemos: Usamos a totalização de 100% das urnas publicada pela Gazeta do Povo, reportagens de 25 e 26/10/2026 e a nota do TSE citada pela Agência Brasil, acessadas em 26/10/2026. Cálculos nossos: diferença de 4.430.191 votos (64.256.232 − 59.826.041); 35.521 ÷ 4.430.191 ≈ 0,8% (o g1 publicou 0,81%); se os 35.521 votos fossem de Flávio no lugar de Lula, a diferença cairia para cerca de 4,36 milhões. Não acessamos o site oficial do TSE. Não houve contato direto com a campanha de Flávio antes da publicação; a posição dele vem do discurso, segundo reportagens. Não identificamos os ministros ouvidos pelo O Globo.

Fontes