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Dólar alto favorece exportador do agro, mas encarece insumo e dívida

Com o dólar perto de R$ 5,40, a soja vendida lá fora rende mais reais, mas adubo importado e juros rurais pesam no custo do produtor.

Estrada asfaltada atravessa lavouras de soja em tons de verde e amarelo, sob céu nublado, em Goiás
Lavouras de soja às margens de rodovia entre Joviânia e Vicentinópolis, em Goiás. Foto de arquivo.Foto: Tiago Firmino Boaventura de Oliveira / Wikimedia Commons (CC BY 3.0)

O dólar fechou em alta de 8,21% nesta segunda-feira (26), a R$ 5,403, segundo a InfoMoney. A CNN Brasil registrou alta de 8,36%, a R$ 5,406. O movimento veio depois da reeleição de Lula, que teve 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro, segundo a CNN Brasil.

A Bolsa também caiu. O Ibovespa fechou com queda de 13,88%, aos 176.608,23 pontos, segundo a CNN Brasil. Para o campo, o dólar mexe nos dois lados da conta: aumenta a receita de quem vende lá fora e o custo de quem compra insumo importado.

O Plano Safra é o programa anual de crédito com juros subsidiados para a agricultura. A edição 2026/27 foi lançada em 30 de junho. Para a agricultura empresarial, reserva R$ 525,1 bilhões, R$ 9 bilhões a mais que no ciclo anterior, segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), via Agrolink.

Quem vende lá fora recebe mais reais

Em regra, a soja é vendida ao mercado externo em dólar. Se a moeda americana sobe e o preço internacional se mantém, cada venda rende mais reais. O indicador do Cepea/Esalq para a soja em Paranaguá marcava R$ 155,55 por saca de 60 quilos na leitura de 26 de outubro.

A alta do dia foi de 2,06%. No acumulado do mês, porém, o preço em reais caía 3,72%, segundo o mesmo indicador. O ganho do exportador depende do dólar e do preço lá fora, que nem sempre sobem juntos.

Quem compra insumo e crédito paga a conta

O adubo é o ponto mais sensível. Segundo a CNA, cerca de 93% dos fertilizantes usados no Brasil foram importados. A ANDA, entidade do setor, fala em mais de 85%. A diferença vem de metodologias distintas.

Entre janeiro e abril de 2026, o gasto com fertilizante importado subiu 16%, segundo a CNA, que liga a alta ao conflito no Oriente Médio e à logística. No mesmo período, o preço médio da ureia ao produtor subiu 40%, e o do MAP, 20%. Em Mato Grosso, o Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária (Imea) estima que o adubo pode chegar a 46,7% do custo da soja na safra 2026/27.

Para o especialista Fellipe Parreira, da GIROAgro, fornecedores nacionais oferecem “menor exposição cambial e logística mais previsível”. No setor de defensivos, a Kynetec viu o faturamento crescer 3% em reais na safra 2024/25, mas cair 7% em dólar, segundo a AgFeed.

Do lado do crédito, o Plano Safra tem teto de 12,5% ao ano no custeio empresarial, que financia insumos, e de 9% no Pronamp, voltado ao médio produtor rural. Em março, o secretário de Política Agrícola do Mapa, Guilherme Campos, disse ao Valor: “A taxa de juros vai ser tão alta quanto agora.” A reportagem foi republicada pelo MundoCoop.

Os juros futuros de longo prazo também subiram. O contrato para janeiro de 2031 chegou a 15,940% às 11h02, alta de 330 pontos-base, segundo a CNN Brasil. Juros futuros são a taxa que o mercado espera para o juro no futuro. Um ponto-base equivale a 0,01 ponto percentual.

Produtores endividados têm outra porta. A MP 1.376, publicada em julho, permite renegociar dívidas de quem comprove duas ou mais perdas acima de 30% entre 2019 e 2025. A contratação vai até 12 de novembro de 2026, segundo o Brasilagro.

O que diz a CNA: Guilherme Rios, da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), diz ser “preocupante” que “pouco mais de R$ 3 bilhões” tenham sido contratados mais de dois meses após a publicação da MP. Ele pede “um ajuste nos rumos da MP para que os recursos, de fato, cheguem aos produtores”. A declaração é pública, reproduzida pelo Brasilagro; a redação não enviou perguntas à entidade antes desta publicação.

O que fica em aberto

Não há um único vencedor no agro. Quem vende em dólar ganha se o preço externo se sustentar. Quem compra adubo importado e depende de crédito em reais tem mais custo e menos margem.

A conta final depende de três números: o câmbio nos próximos meses, o preço do fertilizante para a safra 2026/27 e o custo do crédito. Cotações podem subir ou cair rápido, e movimentos de pânico no mercado podem se aprofundar. Ativos podem perder valor. Este texto não é recomendação de investimento.

Como fizemos: Usamos as cotações do dólar e do Ibovespa da InfoMoney e da CNN Brasil, de 26/10/2026. O indicador de soja é do Cepea/Esalq, acessado em 26/10/2026. Os dados do Plano Safra vêm do Mapa, via Agrolink; os de fertilizantes, da CNA (maio de 2026) e do Imea; os de dívidas rurais, do Brasilagro. Não fizemos cálculos próprios. Os números de importação variam por metodologia, e o texto não mostra quanto cada produtor ganha ou perde.

Fontes