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Em 2002, o dólar chegou a R$ 3,96 antes da posse de Lula

Dólar, risco-país e Ibovespa tiveram o pior momento do ano em 2002. Depois da Carta ao Povo Brasileiro e do acordo com o FMI, a Bolsa subiu.

Dois operadores de costas diante de telas e de um painel vermelho e verde com cotações da Bovespa
Sala de negociação da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), com painel de cotações ao fundo.Foto: Rafael Matsunaga / Flickr / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Na terça-feira, 22 de outubro de 2002, a cotação de venda do dólar chegou a R$ 3,9552. Foi o maior valor do ano, segundo a série diária do Banco Central (BC). Faltavam poucos dias para o segundo turno da eleição presidencial.

Naquele ano, a alta do dólar coincidiu com a campanha de Luiz Inácio Lula da Silva, candidato do PT (Partido dos Trabalhadores). Cinco dias depois, Lula venceu o segundo turno com 61,27% dos votos válidos, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

O risco-país também teve seu pico do ano. Em 27 de setembro, o EMBI+ Brasil, índice calculado pelo banco J.P. Morgan, marcou 2.443 pontos-base. Cada ponto-base equivale a 0,01 ponto percentual. Quanto maior o número, mais caro fica para o Brasil tomar dinheiro emprestado no exterior.

A Bolsa também caiu. O Ibovespa, índice da bolsa paulista (hoje B3), fechou em 8.371 pontos em 16 de outubro. Era o menor nível do ano. Em 28 de dezembro de 2001, estava em 13.578 pontos.

Carta, FMI e nova equipe econômica

Em 22 de junho de 2002, Lula divulgou a Carta ao Povo Brasileiro. O texto dizia que a “premissa dessa transição será naturalmente o respeito aos contratos e obrigações do país”.

Em agosto, o país recebeu com alívio a notícia de um pacote de US$ 30 bilhões do Fundo Monetário Internacional (FMI), segundo a agência IPS. Em 6 de setembro, o conselho do FMI aprovou um crédito stand-by de US$ 30,4 bilhões. Esse tipo de crédito é uma linha de reserva, que o país pode usar se precisar.

Na política econômica, o Senado aprovou em 18 de dezembro, por 39 votos a 12, a indicação de Henrique Meirelles para presidir o Banco Central. Antonio Palocci assumiu o Ministério da Fazenda em 1º de janeiro de 2003.

Juros, inflação e a Bolsa depois

O BC subiu a Selic, a taxa básica de juros, de 18% em 14 de outubro para 25% em 19 de dezembro de 2002. O pico de 26,5% veio só em 20 de fevereiro de 2003. A inflação medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) fechou 2002 em 12,53%, segundo o IBGE.

Entre o fim de 2002 e o fim de 2007, o Ibovespa subiu de 11.268 para 63.886 pontos, em valores nominais. O risco-país seguiu a mesma trajetória. A tabela mostra datas escolhidas.

Ibovespa e risco-país em datas escolhidas, 2002 a 2007 Pontos do Ibovespa e pontos-base do EMBI+ Brasil, valores nominais, último dado de cada data

Data Ibovespa (pontos) Risco-país (pontos-base)
16/10/2002 8.371 2.272
30/12/2002 11.268 1.445
30/12/2003 22.236 471
30/12/2004 26.196 379
29/12/2006 44.474 192
28/12/2007 63.886 213

Fonte: Ipeadata (Ibovespa, fechamento da B3; EMBI+ Brasil, J.P. Morgan). Elaboração: redação.

A recuperação não veio só da política do governo. No mesmo período, os preços de commodities, produtos básicos como soja e minério de ferro, subiram no mundo. Isso reforçou as exportações brasileiras. O Instituto Millenium, em texto de 2014, discute quanto do crescimento veio dessa alta, e o peso desse fator segue em debate.

O que isso significa

Em 2002, o pânico antes da eleição não durou. A Selic subiu até 26,5% em fevereiro de 2003, e a inflação caiu no ano seguinte. A virada teve mais de um fator: o acordo com o FMI, os juros mais altos e a alta das commodities.

Em 25 de outubro de 2026, Lula foi reeleito com 51,79% dos votos válidos, segundo a Gazeta do Povo. Os dados de 2002 não dizem o que acontecerá agora. O ponto de partida é outro, e os juros, a dívida e o câmbio de hoje precisam ser lidos com dados atuais. Investimentos podem perder valor, e pânicos de mercado podem se aprofundar.

O que diz Lula: na Carta ao Povo Brasileiro, de 22 de junho de 2002, ele escreveu que a “premissa dessa transição será naturalmente o respeito aos contratos e obrigações do país”. A íntegra foi publicada pelo Congresso em Foco.

Como fizemos: Usamos as séries 1 (dólar de venda), 432 (meta da Selic) e 433 (IPCA mensal) do Banco Central, e as séries do Ipeadata para o EMBI+ Brasil e o Ibovespa, acessadas em 26/10/2026. O IPCA de 2002 é o acumulado dos 12 meses da série 433, calculado por nós. As quedas e altas em percentual são cálculos nossos, e os valores do Ibovespa e do risco-país são nominais, sem correção pela inflação. O Ipeadata marca a série do EMBI+ como inativa, e não conferimos a data do último dado disponível.

Fontes