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Comprar na queda: a história da Bolsa mostra, mas não garante

Em 2020, o Ibovespa caiu 45% e depois subiu. Em 2008, a queda seguiu por meses. Nenhum padrão do passado garante o próximo movimento.

Dois operadores de costas, sentados diante de monitores, em frente a um painel vermelho com cotações de ações na Bolsa de Valores de São Paulo
Operadores diante do painel de cotações da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), em foto de abril de 2007.Foto: Rafael Matsunaga / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Em 23 de março de 2020, o Ibovespa fechou em 63.569,62 pontos. O índice, principal referência da B3, a Bolsa de Valores de São Paulo, acumulava perda de 45% no auge da crise da pandemia (Suno).

Na segunda-feira (26), o Ibovespa fechou em queda de 13,88%, a maior desde março de 2020, segundo a CNN Brasil. Em toda queda forte aparece a mesma pergunta: comprar na queda compensa? A história traz exemplos. Ela não traz uma regra, e este texto não é recomendação de investimento.

Em 2020, o fundo foi seguido de alta

Em março de 2020, o Ibovespa caiu 29,91%. Foi o pior mês desde agosto de 1998, segundo o InfoMoney. No mesmo mês, a B3 acionou seis vezes o circuit breaker, a pausa automática das negociações (InfoMoney).

Pelas regras da B3, a primeira pausa ocorre quando o índice cai 10% em relação ao fechamento do dia anterior. Ela dura 30 minutos (B3).

Depois do fundo, o índice subiu. Em 31 de março, fechou em 73.019,76 pontos (Poder360). No fim de 2020, chegou a 119.017 pontos, com alta de 2,92% no ano (Poder360).

Sem contar custos e impostos, quem comprou em 23 de março e ficou até o fim do ano ganhou cerca de 87%. Esse número é um cálculo nosso, feito com os fechamentos citados.

Em 2008 e 2016, a queda seguiu

Nem toda queda terminou logo. Em setembro de 2008, a quebra do banco americano Lehman Brothers abalou os mercados. Em outubro, o Ibovespa caiu para 29.435 pontos, cerca de 60% abaixo do recorde de 73.516 pontos, de 20 de maio daquele ano (Agrolink).

Quem entrou antes desse fundo viu o índice cair mais. O ano terminou em 37.550 pontos, com perda de 41,22% (DF).

Em janeiro de 2016, a queda ainda não tinha acabado. Em 11 de janeiro, o Ibovespa fechou em 39.950 pontos, na quarta queda seguida e no menor nível desde março de 2009 (Exame). Em 2016, o índice subiu 39%, o melhor ano desde 2009 (InfoMoney).

Eleições têm resultados diferentes

Em anos de eleição presidencial, o padrão também varia. O Ibovespa recuou em 1998, 2002 e 2014, e subiu em 2006 e 2018 (Poder360).

Em 8 de outubro de 2018, após o primeiro turno, o índice chegou a 87.333 pontos, com alta de 6,06% na máxima do dia (JB). Nesse caso, houve alta, não pânico.

O que os estudos dizem

A Morningstar, empresa americana de análise de fundos, estima uma perda de cerca de 12% do retorno total. O período é de dez anos, de 2016 a 2025 (Wealth Management). Investidores de fundos americanos deixaram de ganhar esse valor por causa do momento das entradas e saídas de dinheiro.

A DALBAR, que mede o comportamento de investidores nos EUA, registrou que o investidor médio ganhou 16,54% em 2024. O S&P 500, índice de 500 grandes empresas americanas, ganhou 25,02% (DALBAR). A diferença de 848 pontos-base equivale a 8,48 pontos percentuais.

Um artigo de 2000 no Journal of Finance acompanhou 66.465 domicílios de uma corretora americana entre 1991 e 1996. Os investidores que mais negociavam renderam 11,4% ao ano, contra 17,9% do mercado (Barber e Odean).

Na B3, o número de CPFs cadastrados de investidores subiu 92,1% em 2020, de 1,68 milhão para 3,23 milhões (Poder360, com dados da B3). Esse dado mostra quantos entraram. Não mostra quanto cada um ganhou.

O que diz a J.P. Morgan Asset Management: no guia de aposentadoria de 2025, a gestora afirma que reações emocionais às quedas podem prejudicar a carteira, porque os melhores dias costumam ocorrer perto dos piores (tradução livre). Segundo o texto, de 4 de março de 2025, perder os 10 melhores dias em 20 anos cortaria o retorno anualizado em quase metade.

O que isso significa

A história mostra três casos diferentes. Houve recuperação rápida em 2020. Houve queda que continuou em 2008. Houve alta nas eleições de 2018. Nenhum desses casos se repete por regra.

Os números são retrospectivos. Só se sabe onde está o fundo depois que o índice já subiu. Nenhum analista consegue anunciar esse ponto com antecedência.

Ativos podem perder valor, e pânicos podem se aprofundar. Este texto não é recomendação de comprar, vender ou manter qualquer investimento.

Como fizemos: Usamos cotações do Ibovespa publicadas por Suno, Poder360, InfoMoney, Exame, Agrolink, DF e JB, e as regras de circuit breaker publicadas pela B3, acessados em 26/10/2026. Os percentuais de ganho sem custos e impostos, como o de 23/03/2020 ao fim de 2020, são cálculos nossos. Não localizamos a série oficial de fechamentos diários da B3 para todas as datas, por isso os valores vêm de reportagens. A queda de 13,88% em 26/10/2026 vem da CNN Brasil.

Fontes