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Quedas na bolsa podem se aprofundar, e o fundo só aparece depois

Circuit breaker pausa o pregão, mas não encerra a queda: em 2008 o Ibovespa perdeu cerca de 60% do pico em cinco meses, segundo o Agrolink.

Fachada de pedra com três portas de ferro sob arcos, com a palavra BOVESPA em letras douradas nas duas portas laterais
Entrada com o nome BOVESPA, histórico da bolsa paulista, no centro de São Paulo.Foto: Wilfredor / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Em 20 de maio de 2008, o Ibovespa fechou em 73.516 pontos, o maior nível da sua história até então. Cinco meses depois, em outubro, chegou a 29.435 pontos, uma perda de cerca de 60%, segundo uma coluna do Agrolink.

O forte tombo desta segunda, 26 de outubro, levantou a mesma pergunta: a queda para aqui ou continua? Ninguém sabe responder no meio da queda. Este texto explica por que um pânico pode se aprofundar.

Por que a queda pode continuar

O Ibovespa é o principal índice da B3, a bolsa brasileira. Quando a queda é forte, a B3 pode acionar o circuit breaker, um mecanismo que pausa a negociação.

Pelas regras da B3, uma queda de 10% sobre o fechamento anterior faz a negociação parar por 30 minutos. Se o índice cair 15% depois da volta, a pausa dura uma hora. A pausa, porém, não resolve o motivo da queda.

Quatro mecanismos ajudam a explicar a cascata. O primeiro é a margem: quem opera com dinheiro emprestado deixa uma garantia na corretora. Se o valor dessa garantia cai e o investidor não reforça, a corretora pode encerrar a posição automaticamente, segundo o Bora Investir, site educativo da B3.

O segundo é a alavancagem, o uso de dinheiro emprestado para ampliar o potencial de retorno. As perdas crescem na mesma proporção e podem superar o capital inicial, segundo o Bora Investir.

O terceiro são os fundos. Quando muitos cotistas, os donos de cotas, pedem resgate ao mesmo tempo, o gestor pode precisar vender ativos, às vezes sem compradores suficientes. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) prevê ferramentas para isso. Entre elas estão o side pocket, que separa parte da carteira difícil de vender, e as barreiras ao resgate, os gates, segundo a Anbima, associação do mercado financeiro.

O quarto é a sequência. Segundo um estudo publicado no arXiv, repositório de artigos científicos, a volatilidade, ou seja, a oscilação dos preços, tende a se agrupar no tempo.

Três quedas, quatro números

Três quedas do Ibovespa, com os números publicados Variação no mês ou no ano e nível do índice, conforme cada fonte

Período Número Fonte
Maio de 2008 73.516 pontos, recorde Mondo Visione
Outubro de 2008 -24,80% no mês Jornal Contábil
2015 -13,31% no ano, 43.349 pontos InfoMoney
Março de 2020 -29,9% no mês; seis circuit breakers Poder360

Fontes: as indicadas em cada linha, acessadas em 26/10/2026. Elaboração: redação.

Em 2015, o Ibovespa caiu 13,31% e fechou a 43.349 pontos, o menor nível desde abril de 2009, segundo a InfoMoney. Em março de 2020, perdeu 29,9% no mês, com seis circuit breakers, segundo o Poder360. Nenhum desses números mostra o dia em que a queda parou. Esse ponto só se reconhece depois.

O que um investidor de primeira viagem precisa separar

Volatilidade é a oscilação dos preços, e não a perda em si. Para o CEO da Simpla Invest, citado pelo Bora Investir, “ativos mais voláteis são mais arriscados”. A perda permanente é o prejuízo que não volta, como o de quem vende no pior momento.

Concentração é ter tudo em uma só empresa ou setor. Segundo o Bora Investir, quem tem apenas ações da empresa afetada sofre uma perda muito maior. Diversificar, ou seja, espalhar o dinheiro em vários ativos, reduz esse risco, mas não elimina todo o risco de um investimento.

Antes de investir, vem a reserva de emergência: a quantia guardada para cobrir despesas fixas em situações inesperadas. O Bora Investir indica de 6 a 12 meses de custos fixos e afirma que “não se deve começar a investir sem antes ter uma reserva”.

Por fim, o prazo. Quanto mais perto estiver o dia em que o dinheiro será usado, menos tempo sobra para esperar uma recuperação de preços. Para aprofundar, a CVM mantém o Portal do Investidor, e a B3, o Bora Investir.

O que diz a B3: na página sobre o circuit breaker, a bolsa descreve pausas de 30 minutos, de uma hora e de prazo definido pela própria B3, conforme a queda. Não localizamos comunicado da B3 sobre a queda desta segunda. A redação não enviou perguntas à B3 para esta versão.

O que isso significa

Quedas fortes podem durar meses e alimentar vendas forçadas. O que segue em aberto é o rumo da bolsa nos próximos dias, e ninguém sabe isso hoje.

Este texto não recomenda comprar, vender ou manter nenhum ativo. Ações e fundos podem perder valor, e pânicos podem se aprofundar.

Como fizemos: Usamos as cotações e variações citadas no texto (Mondo Visione, 21/05/2008; Agrolink, coluna de 24/05/2013; Jornal Contábil, 06/04/2020; InfoMoney, 30/12/2015; Poder360, 31/03/2020) e as regras de circuit breaker publicadas pela B3, acessadas em 26/10/2026. A queda de 60% é nosso cálculo: (73.516 − 29.435) ÷ 73.516 = 59,96%, arredondado. Não localizamos a data exata da mínima de 2008 nem o fechamento do pregão de 26/10/2026, por isso o texto não traz esses números. A página da B3 consultada tem versão de 2020, e não confirmamos se as regras continuam as mesmas.

Fontes