Religião

Denúncias contra religiões afro-brasileiras sobem 40% no 1º semestre

O Disque 100 registrou 270 denúncias envolvendo religiões de matriz africana de janeiro a junho de 2026, contra 192 um ano antes.

Altar branco com oferendas de frutas, flores brancas e vasos, ao lado de uma estátua escura à direita, em ritual de candomblé
Oferenda com frutas e flores em altar de candomblé, em foto de domínio público publicada no Wikimedia Commons.Foto: Toluaye / Wikimedia Commons (domínio público)

Entre janeiro e junho de 2026, o Disque 100 registrou 270 denúncias envolvendo religiões de matriz africana. No mesmo período de 2025, foram 192. O Disque 100 é o canal do governo federal para denúncias de violações de direitos humanos.

Os números foram publicados pelo jornal A Crítica em 2 de outubro, dois dias antes do primeiro turno. No mesmo dia, o Jornal Grande Bahia reuniu relatos de terreiros sobre invasões, depredações e ameaças. A reportagem cita a ialorixá (mãe de santo) Mirela, do Ilê Axé Oxum Omolú, em Pindoretama, no Ceará. Segundo o jornal, ela se preocupa em praticar a fé sem medo de ataques, e usa a expressão “fascismo religioso” para descrever o que vê como perseguição.

Terreiros são os templos das religiões afro-brasileiras, como o candomblé e a umbanda. Em 30 de setembro, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), mandou a Polícia Federal (PF) investigar ataques contra símbolos religiosos. A decisão cita um terreiro de umbanda em Minas Gerais entre os casos, e a PF abriu inquérito no mesmo dia.

Mais denúncias, ano após ano

Em 2024, o Disque 100 recebeu 2.472 denúncias de intolerância religiosa. Foi uma alta de 66,8% sobre as 1.481 de 2023, segundo a Agência Brasil, com dados do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC).

Em janeiro de 2026, o MDHC divulgou 2.774 denúncias entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026. A umbanda aparece com 228 registros e o candomblé com 161, segundo o ministério.

Denúncias registradas pelo Disque 100, por período Número de denúncias; os recortes têm tamanhos diferentes

Período Denúncias
2023 (ano inteiro) 1.481
2024 (ano inteiro) 2.472
jan. 2025 a jan. 2026 (13 meses) 2.774
jan. a jun. 2025, religiões de matriz africana 192
jan. a jun. 2026, religiões de matriz africana 270

Fonte: Agência Brasil (21/01/2025), TVT News (21/01/2026) e A Crítica (02/10/2026), com dados do Disque 100. Elaboração: redação.

Os números de 2026 são os mais recentes, mas vêm de uma só reportagem. Não localizamos o painel oficial do Disque 100 com os dados do primeiro semestre.

O que dizem os terreiros

A pesquisa “Respeite o Meu Terreiro” ouviu religiosos de 511 terreiros. Feita pela Rede Nacional de Religiões Afro-brasileiras e Saúde (Renafro), em parceria com o MDHC, ela mostra que 76% dos terreiros sofreram alguma forma de violência.

Outros 52% relataram ataques na internet. Segundo a pesquisa, menos de três em cada dez registraram boletim de ocorrência na polícia. Quem não registra fica de fora da conta oficial de denúncias.

O que a lei prevê

A lei já pune a discriminação religiosa. O artigo 20 da Lei 7.716/1989 prevê reclusão de um a três anos e multa para quem pratica, induz ou incita discriminação por religião. A redação atual vem da Lei 9.459/1997.

O artigo 208 do Código Penal prevê detenção de um mês a um ano, ou multa, para quem zomba publicamente de uma crença, impede um culto ou desrespeita publicamente objeto de culto. Dino fala em indícios de crimes como preconceito religioso e vilipêndio de objeto de culto. Os casos estão em investigação, segundo as reportagens.

Em 3 de setembro, o Ministério Público Eleitoral assinou no TSE, com lideranças religiosas, o Pacto Nacional pela Paz e Tolerância das Eleições 2026. A página do MPF não cita terreiros nem religiões de matriz africana. Não encontramos, em outubro, nota do Ministério Público ou da polícia sobre ameaças a terreiros.

O que diz o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC): não localizamos nota pública do ministério sobre o balanço de 2026 nem sobre ataques a terreiros em outubro. Os dados citados vêm dos balanços divulgados em janeiro de 2025 e em janeiro de 2026. A redação não enviou perguntas ao órgão para esta versão, e o texto não traz resposta.

O que isso significa

Os dados mostram alta nas denúncias, mas não provam sozinhos que houve mais ataques. Mais registros podem refletir mais denúncias feitas, e não apenas mais agressões. Quem não registra ocorrência também fica fora da conta.

O que segue em aberto é o painel oficial do Disque 100 para 2026 e o andamento do inquérito da PF. Cabe às investigações apurar a autoria e a motivação de cada caso.

Como fizemos: Usamos reportagens de A Crítica e do Jornal Grande Bahia (02/10/2026), da Agência Brasil (21/01/2025 e 07/12/2025, esta última republicada pelo Diário de Pernambuco), da TVT News (21/01/2026), do SBT News e do Diário do Pará (30/09/2026), e a página do MPF, acessadas em 24/10/2026. A alta de 40,6% é nosso cálculo: (270 − 192) ÷ 192. Entre 2023 e 2024, a Agência Brasil informa 66,8%, e nosso cálculo com os números absolutos dá 66,9%; o texto cita a fonte. O total de 2.774 cobre 13 meses e não é comparável ao de 2024. Os números são contagens, por isso não foram corrigidos pela inflação. O texto de A Crítica traz também 1.252 denúncias gerais no semestre, que não usamos como base, e a chamada da reportagem fala em “mais de 12 mil”. Os textos da lei vieram de cópia consolidada da Câmara (art. 20) e de sites jurídicos (art. 208), porque o site do Planalto não abriu na checagem.

Fontes