Religião

Idafro compara planos de Lula e Flávio sobre racismo religioso

Segundo o Idafro, o plano de Flávio não usa a palavra racismo, e o de Lula trata do tema, em dossiê publicado antes do 2º turno.

Arranjo religioso doméstico de matriz africana, com bonecas, imagens e vela acesa sobre uma prateleira
Arranjo religioso doméstico usado como altar de culto em religiões de matriz africana, no Brasil.Foto: M. B., Jr. / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

No dia 23 de outubro, a Agência Brasil noticiou um minidossiê do Instituto de Defesa dos Direitos das Religiões Afro-Brasileiras (Idafro). O texto compara o que Lula e Flávio Bolsonaro fizeram e propõem sobre racismo e liberdade religiosa. A publicação saiu dois dias antes do segundo turno.

No domingo (25), Lula foi reeleito com 51,79% dos votos, contra 48,21% de Flávio, segundo a CNN Brasil. Por isso, a comparação já não orienta uma escolha. Ela serve para medir o que o governo eleito prometeu.

O que diz o dossiê

O Idafro se apresenta como defensor da liberdade de consciência e de crença e do combate à intolerância religiosa. Segundo a Agência Brasil, o minidossiê cruza propostas registradas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com dados do Congresso. Racismo religioso é a discriminação contra religiões de matriz africana, como o candomblé e a umbanda, e contra suas casas de culto, os terreiros.

Sobre Lula, o dossiê diz que o programa reconhece a discriminação racial como fonte de desigualdade. O texto do plano, reproduzido pelo SBT News, afirma que o combate ao racismo fica “no centro de nossa estratégia de desenvolvimento”. O plano promete avançar na regulamentação do Estatuto da Igualdade Racial e manter cotas no serviço público.

O programa também fala em acelerar a titulação de terras quilombolas. Cita 65 titulações desde 2023 e promete ações de demarcação de terras indígenas. O dossiê lembra que, em 2024, o governo começou a criar uma política nacional para os povos de terreiro.

Flávio e a segurança pública

Sobre Flávio, o dossiê diz que o plano não usa termos como “racismo”, “cota”, “terreiro” ou “laico”. Essa contagem é do Idafro. Não conseguimos abrir o texto de 76 páginas no sistema do TSE, por isso não a repetimos como nossa checagem.

O plano de segurança prevê um sistema nacional de reconhecimento facial, a “Muralha Brasileira”. Segundo a Sociedade Militar, ele teria mais de 1 milhão de novas câmeras, e a campanha diz que ainda não há estimativa de orçamento.

O Idafro alerta que esse sistema pode criminalizar pessoas negras, pois pesquisas apontam mais erros com rostos negros e pardos. Um levantamento da Rede de Observatórios da Segurança, de 2019, mostrou que 90% das 151 pessoas presas por reconhecimento facial eram negras. Os dados cobrem cinco estados e o período de março a outubro daquele ano.

O dossiê também relata boatos contra Lula e a primeira-dama Janja. Entre eles estão imagens feitas com inteligência artificial (IA) de uma suposta oferenda no Palácio do Planalto, segundo a Agência Brasil.

O que diz a campanha de Flávio Bolsonaro: A Agência Brasil informou que procurou a campanha para comentar o relatório. A reportagem não traz resposta, e o espaço segue aberto. A redação não enviou perguntas à campanha antes desta publicação.

O que muda com o resultado

Com a vitória de Lula, o plano de Flávio deixa de ser o programa de governo. O de Lula passa a ser a referência do próximo mandato. Promessa de campanha, porém, não garante execução, pois depende de orçamento e do Congresso.

Há também uma obrigação já definida. Em dezembro de 2025, o Supremo Tribunal Federal (STF) reconheceu o racismo estrutural no país e mandou o governo federal elaborar um plano nacional em 12 meses. A decisão cita campanhas contra o racismo e contra o preconceito a religiões de matriz africana. O prazo termina por volta do fim de 2026, e o governo que assume em janeiro herda a tarefa.

Como fizemos: Usamos a reportagem da Agência Brasil de 23/10/2026 sobre o minidossiê do Idafro, o site do Idafro e a reprodução do plano de Lula feita pelo SBT News em 02/09/2026. Também usamos a Sociedade Militar (18/10/2026), o Olhar Digital (levantamento de 2019) e a CNN Brasil para o resultado. Os acessos foram feitos em 27/10/2026. Não abrimos o PDF do plano de Flávio no TSE, então a contagem de termos é a do Idafro. Não encontramos a reportagem do Correio Braziliense de 24/10 sobre deputados e intolerância religiosa, e por isso ela não entra no texto.

Fontes