Religião

89% do dinheiro da campanha de Flávio veio de repasses do PL

R$ 55,2 milhões dos R$ 61,7 milhões arrecadados até 1º de outubro vieram do PL; nas listas consultadas, nenhum pastor ou igreja aparece entre os maiores doadores.

As torres do Palácio do Congresso Nacional, sede da Câmara dos Deputados e do Senado, em Brasília
Palácio do Congresso Nacional, em Brasília: o fundo que financia as campanhas é dinheiro público, definido em lei pelo Congresso (foto de arquivo).Foto: Arquivo / Agência Brasil / Wikimedia Commons (CC BY 3.0 BR)

Até 1º de outubro de 2026, a campanha de Flávio Bolsonaro (Partido Liberal, PL) à Presidência tinha recebido R$ 61,7 milhões. Desse total, R$ 55,2 milhões, ou 89%, vieram de repasses do próprio partido. Os dados são do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), segundo o Poder360 e o GGN.

Os registros mostram uma campanha bancada pelo partido e por poucos empresários. Nas listas consultadas, nenhum pastor ou igreja aparece entre os maiores doadores. A religião aparece mais em cultos e discursos do que nas contas.

Esses repasses vêm sobretudo do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC). O fundo foi criado em 2017 para compensar o fim das doações de empresas, proibidas pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Ele é formado por recursos do Orçamento da União em anos eleitorais. O total de R$ 55,2 milhões também inclui recursos do fundo partidário e doações feitas ao partido.

De onde vem o dinheiro

Os doadores individuais mencionados nas reportagens são, em geral, empresários. Erasmo Battistella, do grupo de biodiesel Be8, e Fernando de Castro Marques, da União Química, deram R$ 500 mil cada, segundo o TSE e o Metrópoles. A família Gurgel Rocha, do grupo Guararapes, somou R$ 415 mil. O Poder360 e o GGN citam ainda Luiz da Rocha Salles Filho, com R$ 1 milhão, valor que não encontramos em outra fonte.

Veja a divisão na tabela abaixo.

PL responde por 89% da arrecadação da campanha de Flávio Valores recebidos até 1º de outubro de 2026, em R$ milhões

Origem R$ milhões Participação
Repasses do PL 55,2 89%
Outras fontes (doações diretas e demais receitas) 6,5 11%
Total arrecadado 61,7 100%

Fonte: TSE, por meio de Poder360, GGN e NCNews. O NCNews cita cerca de R$ 55,3 milhões para o PL; usamos o valor publicado na reportagem original (R$ 55,2 milhões). Cálculo das outras fontes e das participações: redação.

Igrejas em casos anteriores

Em 2018, na disputa ao Senado, a campanha de Jair Bolsonaro foi a maior doadora em dinheiro de Flávio, com R$ 200 mil, segundo o Estado de Minas. As doações em dinheiro e as estimativas de material e serviços somaram R$ 712,2 mil. O Ministério Público do Rio examinou as contas, e nenhum doador religioso foi identificado, segundo o jornal A Gazeta.

Em 2022, o PL repassou R$ 500 mil do fundo eleitoral a Samuel Malafaia, irmão do pastor Silas Malafaia. Ele disputava uma vaga na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj). A média dos outros 63 candidatos do partido à Alerj foi de R$ 66 mil, ou seja, o repasse foi mais de sete vezes maior. Nas fontes consultadas, não há indicação de participação de Flávio nesse repasse.

Em fevereiro de 2024, Malafaia anunciou que a associação Vitória em Cristo pagaria o trio elétrico de um ato de Jair Bolsonaro na Avenida Paulista. Depois das críticas sobre o uso de dízimos, ele disse que pagaria do próprio bolso. O trio principal foi orçado em R$ 55 mil.

Religião no púlpito

Em 10 de outubro, Flávio cantou no culto do centenário da Assembleia de Deus Madureira, no Maracanãzinho, no Rio. Ele disse que o país vive uma “guerra espiritual”. Segundo o Jornal de Brasília, o bispo Samuel Ferreira liderou 14 repetições do grito “irmão vota em irmão”. Flávio afirmou: “O bispo não pediu, mas a igreja está pedindo.”

Em maio de 2026, o Movimento Brasil Laico (MBLaico), entidade de defesa do Estado laico, representou à Procuradoria Regional Eleitoral no Rio contra Flávio e Silas Malafaia. O pedido fala em propaganda antecipada e abuso de poder religioso, e pede multa e inelegibilidade. Nas fontes consultadas, não há decisão nem manifestação de Flávio sobre o pedido.

O que diz o diretório nacional do PL: A reportagem não localizou manifestação do partido sobre a composição desses repasses nas fontes consultadas. Os valores constam das prestações de contas declaradas ao TSE, segundo os levantamentos citados.

Os números indicam que a campanha de Flávio depende do PL, que distribui aos candidatos recursos do fundo eleitoral. As outras fontes somam R$ 6,5 milhões, cerca de 11% do total. Por isso, a ideia de que igrejas financiam a campanha vai além do que os registros mostram.

Ficam em aberto a lista completa de doadores, que não pôde ser lida com precisão, e a decisão sobre o pedido do MBLaico. O segundo turno está marcado para 25 de outubro, e a prestação de contas no TSE mostra cada doador.

Como fizemos: Usamos os totais de Flávio Bolsonaro até 1º de outubro de 2026, a partir de dados do TSE reproduzidos pelo Poder360, pelo GGN e pelo NCNews, acessados em 20 de outubro de 2026. Não conseguimos abrir os textos do Poder360 e do GGN nem o painel do TSE, então conferimos os valores em outras reportagens que citam o TSE. A parcela do PL (89%) e o restante de R$ 6,5 milhões (11%) são cálculos nossos; os casos de 2018, 2022 e 2024 vêm de reportagens da época, sem correção pela inflação, pois não comparamos valores entre anos. As listas completas de doadores não puderam ser lidas com precisão, e o doador de R$ 1 milhão não foi confirmado por outra fonte.

Correção: uma versão anterior deste texto dizia que a MBLaico pediu o cancelamento da candidatura e a revisão da imunidade tributária de uma igreja, após o culto de 10 de outubro. O registro encontrado é de maio de 2026 e pede multa e inelegibilidade. Também dizia que a associação de Malafaia bancou o trio de 2024, e que as doações em dinheiro de 2018 somaram R$ 712 mil. O valor de R$ 712,2 mil inclui estimativas de material e serviços, e a associação foi anunciada como pagadora antes de Malafaia dizer que pagaria do próprio bolso.

Fontes