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Em oito dias, Flávio trocou de lado sobre a 6x1

Flávio criticou o fim da escala 6x1 em 6 de outubro e votou a favor oito dias depois; a alternativa que defendia paga por hora trabalhada.

Este texto pertence ao caderno Comentário. A análise é de quem assina e não representa necessariamente a posição do Jornal Liberdade.

Entregador de moto, de capacete e mochila vermelha do iFood, sai de um posto para uma avenida movimentada ao anoitecer
Entregador de aplicativo no trânsito de Campo Grande (MS), em abril de 2021 (foto de arquivo).Foto: Vinícius Soares Pereira / Trabalho próprio / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Em 6 de outubro, Flávio Bolsonaro (PL, Partido Liberal) criticava o fim da escala 6x1, de seis dias de trabalho para um de folga. Em 13 de outubro, disse que votaria a favor e que o governo deveria pagar a conta, segundo a CNN Brasil. Em 14, votou a favor no Senado, a distância. Oito dias bastaram para o candidato da direita trocar de lado.

Nós, que estamos à direita, defendemos a livre negociação, o emprego com carteira e menos peso do Estado sobre quem contrata. Flexibilidade é uma bandeira nossa, e não há do que se envergonhar nela. É justamente por isso que não podemos entregá-la a quem a usa como embalagem.

No fim de maio ou início de junho, Flávio assinou a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 12/2026, apresentada no Senado por Rogério Marinho (PL-RN). Ela permite escolher entre a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) e um modelo flexível, pago por hora trabalhada. Em 14 de outubro, o Senado aprovou o fim da escala 6x1 por 75 votos a 1.

O que dizem os críticos, e o que o registro mostra

A Fundação Perseu Abramo, ligada ao PT (Partido dos Trabalhadores), classifica o capítulo sobre trabalho como precarização, vulnerabilidade e ataque aos sindicatos. O site The Intercept Brasil diz que a PEC 12/2026 abre brecha para reduzir salários. Seria um erro descartar essas vozes como adversárias: os fatos estão no papel, assinados pelo candidato e seus aliados.

O primeiro fato é a PEC 12, que calcula salário, férias, 13º e FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) em proporção às horas trabalhadas, segundo o Congresso em Foco. Em 6 de outubro, Flávio defendeu essa alternativa, como mostra a tabela 1: “Liberdade do trabalhador de escolher sua própria carga horária.”

Em 16 de outubro, Flávio prometeu não reverter o fim da 6x1, mas o Metrópoles relatou que o coordenador da campanha, Rogério Marinho, apresentou a opção de contratação por hora. Sóstenes Cavalcante, líder do PL na Câmara, disse que trabalharia para aprovar a proposta em 2027, se Flávio vencer.

Posições de Flávio Bolsonaro sobre a escala 6x1 em outubro de 2026 Em oito dias, ele passou de crítico a favorável ao fim da escala, segundo reportagens

Data Posição ou ação
6 de outubro Criticou o fim da escala 6x1 e defendeu a PEC 12/2026 como alternativa
13 de outubro Disse que votaria a favor e que o governo deveria pagar a conta
14 de outubro Votou a favor do fim da escala 6x1 no Senado, que aprovou por 75 votos a 1
16 de outubro Prometeu não reverter o fim da escala 6x1 se for eleito

Fonte: Congresso em Foco (6/10), CNN Brasil (13/10), Exame (14/10) e Metrópoles (16/10). Elaboração: redação.

Uma seção do plano tem o título “O trabalhador em primeiro lugar, não o sindicato”. O plano defende jornadas flexíveis e o “negociado sobre o legislado”, que dá prioridade ao acordo sobre a lei. Flexibilizar com sindicato forte é negociação. Flexibilizar enfraquecendo quem negocia é outra coisa.

Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), 2 milhões de pessoas trabalhavam por aplicativo em 2025. Só 34% delas contribuíam com o INSS (Instituto Nacional do Seguro Social), contra 62,4% dos ocupados do setor privado, como mostra a tabela 2. O plano promete proteção previdenciária a esses trabalhadores, mas as fontes consultadas não dizem como, nem quem paga.

Trabalhadores por aplicativo contribuem para o INSS em proporção bem menor Percentual de ocupados que contribuíam com o INSS, em 2025

Grupo Contribuíam com o INSS
Ocupados do setor privado 62,4%
Trabalhadores por aplicativo 34%

Fonte: IBGE, Pnad Contínua 2025, divulgada em 4 de setembro de 2026, segundo a SBT News. Elaboração: redação.

A conta que a direita não costuma mandar

Ao dizer que “quem vai pagar essa conta vai ser o governo”, o candidato não fala como liberal. Fala como quem promete a todos e manda a fatura ao contribuinte.

Segundo o Terra, Marcelo Kayath, nome cotado para a equipe econômica de Flávio, considera inviável um ajuste fiscal de R$ 200 bilhões em um ano. Em 1º de setembro de 2021, Flávio votou a favor da Medida Provisória (MP) 1.045, a “minirreforma trabalhista”. O Senado rejeitou a medida por 47 votos a 27.

O outro lado do registro

A acusação de que a pejotização, a contratação de trabalhadores como empresa, é a principal política de Flávio vai além do registro. Nas fontes consultadas, não há proposta do plano sobre o tema; Flávio diz que “todos os direitos trabalhistas estão garantidos” e votou, sim, pelo fim da 6x1. Negar fatos verdadeiros só daria munição a quem quer desacreditar o resto.

O que diz Flávio Bolsonaro e a campanha: O plano prevê reduzir o custo da contratação formal “com preservação de direitos” e garantir proteção previdenciária a trabalhadores de plataformas digitais. Em entrevista à TV Globo, em 16 de outubro, ele disse que “todos os direitos trabalhistas estão garantidos”. Nas fontes consultadas, não há manifestação dele sobre a pejotização.

A direita que defendeu a reforma trabalhista merece um candidato que a defenda com números, não com versões. Flexibilidade com salário por hora, sindicato em segundo plano e conta mandada ao governo é precarização com outro nome. No segundo turno, em 25 de outubro, quem é de direita não precisa gostar de Lula. Precisa apenas não emprestar a bandeira da livre iniciativa a quem a dobra conforme a semana.

Este texto pertence ao caderno Comentário e reflete a visão de quem o assina.

Como fizemos: Conferimos datas, votos e citações com as reportagens e documentos listados, acessados em 21 de outubro de 2026. O percentual de contribuição ao INSS é da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) de 2025, segundo a SBT News; não localizamos a tabela oficial do IBGE. A diferença de 28,4 pontos percentuais (62,4% menos 34%) é cálculo nosso, sem correção pela inflação, porque não comparamos valores entre anos. A acusação sobre a pejotização não tem fonte identificada no texto e não apareceu nas nossas buscas; não tivemos acesso ao texto integral do plano nem à íntegra do Intercept, cuja página bloqueou a leitura.

Correção: A versão anterior citava entre aspas a expressão “sem retirar direitos”, que não localizamos nas fontes. O plano, segundo a Forbes, fala em “com preservação de direitos”. O texto também dizia que Marcelo Kayath “chamou de inviável” o ajuste; a palavra é da reportagem do Terra, e o texto agora a atribui a ela.

Fontes