Fim do BPC é boato; estudo de Flávio mexe só no reajuste
Posts sobre fim do BPC e do 13º são falsos. A equipe de Flávio estudou corrigir o benefício só pela inflação, segundo a Folha.

Em 7 de outubro, a Folha de S.Paulo revelou um estudo da equipe econômica de Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência. A equipe estudou cortar cerca de R$ 250 bilhões em gastos obrigatórios, despesas que o governo tem de pagar pelas regras atuais. Uma das ideias era corrigir o Benefício de Prestação Continuada (BPC), pago a idosos e pessoas com deficiência de baixa renda, só pela inflação.
As redes foram além e criaram versões que não se sustentam. Este texto separa o que é falso do que está documentado. O achado principal é que a proposta mexe no reajuste do benefício, e a correção pela inflação responde por uma fração pequena do corte.
Hoje, o BPC equivale a um salário mínimo, de R$ 1.621 em 2026. Quando o mínimo sobe acima da inflação, o benefício sobe na mesma proporção. Mudar essa regra exige uma proposta de emenda à Constituição (PEC), que altera as regras mais altas do país, segundo a Folha.
O que é falso ou não se confirma
Há posts que dizem que Flávio vai acabar com o BPC e com o 13º, e que quer aposentadoria só aos 75 anos. O TMC classificou as três alegações como falsas. Não há proposta identificada para extinguir o 13º nem o BPC, embora existam discussões sobre seus reajustes. A idade de 75 anos não consta do programa de governo nem foi anunciada pelo candidato.
Também é falso um vídeo em que Flávio aparece “anunciando” o fim do Bolsa Família, segundo o Boatos.org. O site classificou a peça como deepfake, ou seja, uma montagem com inteligência artificial que faz alguém dizer o que nunca disse. As imagens são reais, mas a fala foi manipulada.
Há ainda uma acusação que não pode ser dada como certa. O ICL Notícias afirma que Flávio foi um dos 14 senadores que votaram para manter um veto do então presidente Jair Bolsonaro, em março de 2020. O veto barrava a mudança que elevava de um quarto para meio salário mínimo o limite de renda por pessoa para o BPC. A Agência Senado confirma a derrubada do veto, por 45 votos, mas o voto individual de Flávio não foi confirmado pelas fontes consultadas.
O que o estudo prevê
Segundo a Folha, a equipe discutiu um corte inicial perto de 2% do Produto Interno Bruto (PIB), a soma de tudo o que o país produz. A lista incluía corrigir as aposentadorias do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e o BPC só pela inflação. Os pisos de saúde e educação são gastos mínimos fixados pela Constituição, e o estudo previa atrelá-los à inflação. As medidas seriam reunidas numa “Super PEC da Transição”, que poderia ir ao Congresso entre a eleição e a posse, caso Flávio vença o segundo turno.
Quanto pesa cada medida
Segundo o economista Guilherme Klein, citado pela BBC, corrigir o mínimo só pela inflação economizaria R$ 15 bilhões a R$ 16 bilhões no primeiro ano. Klein ressalta que a economia líquida pode ser menor, pois o gasto dos beneficiários gera arrecadação de impostos. Isso equivale a cerca de 6% dos R$ 250 bilhões, em conta nossa. A tabela abaixo reúne os números usados.
Corrigir o mínimo só pela inflação responde por cerca de 6% da meta Valores em R$ bilhões e em % da meta; estimativas de fontes citadas, sem correção pela inflação
| Dado | Valor | Fonte |
|---|---|---|
| Corte estudado pela equipe de Flávio (cerca de 2% do PIB) | R$ 250 bi | Folha, via IstoÉ Dinheiro |
| Gasto discricionário (não obrigatório) previsto para 2027 | R$ 222 bi | Guilherme Klein, via BBC |
| Economia com corrigir o mínimo só pela inflação no 1º ano | R$ 15 bi a R$ 16 bi (6% a 6,4% da meta) | Guilherme Klein, via BBC; cálculo nosso |
| Beneficiários do INSS que recebem um salário mínimo | cerca de 70% | Folha, via BBC |
Fonte: Folha de S.Paulo, via IstoÉ Dinheiro; BBC, via O Povo, com estimativas do economista Guilherme Klein. Percentuais: cálculo da redação. Elaboração: redação.
Corrigir só pela inflação mantém o poder de compra, mas deixa de repassar o ganho real. Com o mínimo de R$ 1.621 em 2026, cada ponto percentual de ganho real perdido vale R$ 16,21 por mês, ou R$ 194,52 por ano. Cerca de 70% dos beneficiários do INSS recebem um salário mínimo, segundo dados da Folha citados pela BBC. Por isso, a regra atingiria sobretudo quem ganha menos.
O que diz Flávio Bolsonaro: Segundo o Poder360, em 8 de outubro ele chamou de “fake news do PT” a afirmação de que acabaria com o reajuste das aposentadorias, e prometeu aumento acima da inflação. Em 16 de outubro, em sabatina da TV Globo, disse que não desvincularia as aposentadorias do salário mínimo, segundo o InfoMoney. A campanha afirma que ainda não há posição oficial sobre o tema.
O que isso significa
O boato sobre o fim do BPC não corresponde às propostas conhecidas. O estudo, segundo a Folha, mexe no reajuste e não no valor pago hoje. Ele não foi apresentado oficialmente, e a campanha diz que ainda não há posição oficial sobre o tema.
A correção do mínimo pela inflação responde por cerca de 6% da meta. O restante dependeria de medidas que ainda não foram apresentadas oficialmente. O segundo turno é em 25 de outubro. Se o estudo virar proposta, a mudança terá de passar pelo Congresso.
Como fizemos: Usamos reportagens da Folha de S.Paulo lidas por meio de reproduções, porque o texto original não foi localizado, além de checagens do TMC e do Boatos.org. As páginas citadas foram acessadas em 21/10/2026, incluindo Poder360, InfoMoney, Agência Senado, o decreto do salário mínimo e a data do segundo turno. Os cálculos são nossos: R$ 15 bi a R$ 16 bi sobre R$ 250 bi (6% a 6,4%), e 1 ponto percentual de R$ 1.621 (R$ 16,21 por mês, ou R$ 194,52 por ano). Não corrigimos valores pela inflação, e os dados não mostram o efeito final, pois o pacote não foi oficializado.
Correção: uma versão anterior deste texto atribuía ao InfoMoney a declaração de 16 de outubro. A fala foi dada em sabatina da TV Globo, relatada pelo InfoMoney. A versão também dizia que o candidato negou “cada ponto” do estudo; as fontes registram a negativa de cortes em benefícios sociais e de mudança no reajuste das aposentadorias.
Fontes
- Equipe de Flávio estuda corte de 2% do PIB em despesas, diz Folha — IstoÉ Dinheiro
- O que Flávio Bolsonaro e Lula propõem sobre reajuste do salário mínimo e aposentadorias — BBC via O Povo
- Flávio nega corte em aposentadoria e cita reajuste acima da inflação — Poder360
- Flávio diz que não vai desvincular reajuste do mínimo nem alterar pisos de saúde — InfoMoney
- É falso que Flávio Bolsonaro vai acabar com 13º e BPC e elevar aposentadoria para 75 anos — TMC
- Checagem do vídeo de Flávio Bolsonaro sobre o fim do Bolsa Família — Boatos.org
- Flávio Bolsonaro, o tesouraço e os votos sobre o BPC — ICL Notícias
- Congresso derruba veto ao aumento da renda familiar para acesso ao BPC — Agência Senado
- Lula publica decreto que aumenta salário mínimo para R$ 1.621 em 2026 — Jovem Pan (acesso em 21/10/2026)
- Quando é o segundo turno das Eleições 2026 — Diário do Nordeste (acesso em 21/10/2026)
