Direitos

Sindicalização em queda, plano de Flávio coloca o sindicato em segundo lugar

A taxa de sindicalização caiu de 16,1% em 2012 para 8,9% em 2024, e o plano registrado no TSE prevê contratos mais baratos e acordos acima da lei.

Multidão com bandeiras da CTB e da CUT e balões gigantes das centrais sindicais numa avenida de São Paulo
Ato unificado das centrais sindicais no 1º de Maio, Dia do Trabalhador, em São Paulo, em 2017 (foto de arquivo).Foto: CTB – Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil / Flickr / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

No dia 13 de agosto, Flávio Bolsonaro (PL) pediu registro de candidatura no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), com o plano de governo “Para o Brasil Vencer o Atraso”. Uma das seções sobre emprego traz no título o recado do texto: “O trabalhador em primeiro lugar, não o sindicato”.

Cruzando o plano com dados do IBGE, o achado é este. O plano dá mais peso ao que for negociado entre as partes, justamente quando a taxa de sindicalização está em 8,9%, contra 16,1% em 2012.

O sindicato representa uma categoria inteira de trabalhadores e negocia salário, jornada e benefícios com as empresas. A taxa de sindicalização mostra a parcela de trabalhadores filiados a um sindicato. O plano defende o “negociado sobre o legislado”, princípio em que o acordo entre as partes pode prevalecer sobre a regra da lei. Quanto menor a força do sindicato, menos peso o trabalhador tem nessa mesa.

O que o plano propõe

O plano diz que vai “reduzir gradualmente o custo do trabalho, sem retirar direitos”. Prevê também um contrato para jovens de 18 a 24 anos em busca do primeiro emprego. A Fundação Perseu Abramo (FPA), ligada ao PT, descreve esse contrato como de “menor custo na folha”. Para pessoas com 50 anos ou mais desempregadas há pelo menos 12 meses, o texto promete um contrato “mais atrativo”.

A FPA classifica a proposta como “precarização, vulnerabilidade e ataque aos sindicatos”. Sobre a pejotização, a contratação de trabalhadores como pessoa jurídica, a fundação diz que o plano “não apresenta resposta estruturada”. O caso, o Tema 1.389, segue sem julgamento final no Supremo Tribunal Federal (STF).

Menos sindicalizados desde 2012

Segundo o IBGE, 16,1% dos trabalhadores ocupados, ou seja, com emprego, eram sindicalizados em 2012. Em 2023, a taxa caiu para 8,4%, e em 2024 subiu para 8,9%, ou 9,1 milhões de pessoas. Na comparação com 2012, são 7,2 pontos percentuais a menos (a diferença entre as duas taxas), uma queda de 45% na taxa. O gráfico abaixo mostra as taxas dos anos com dado nas fontes consultadas.

Gráfico de barras mostra que a taxa de sindicalização caiu de 16,1% em 2012 para 8,4% em 2023 e subiu para 8,9% em 2024 Fonte: IBGE, PNAD Contínua (edição especial, divulgada em 19/11/2025), via Agência Brasil e Brasil de Fato. Mostra só os anos com dado nas fontes consultadas. Elaboração: redação.

Um analista do IBGE, William Kratochwill, disse que os dados mostram “uma correlação forte entre a implantação da lei e a queda” da filiação. A reportagem da Brasil de Fato identifica essa lei como a reforma trabalhista de 2017. Correlação não prova causa, mas a queda coincide com a mudança na regra.

O histórico de Flávio

Em 1º de setembro de 2021, Flávio votou a favor da Medida Provisória (MP) 1.045, que senadores apelidaram de “minirreforma trabalhista”. O Senado rejeitou a MP por 47 votos contra, 27 a favor e uma abstenção. Em 7 de outubro, ele criticou a proposta de emenda à Constituição (PEC) que acaba com a escala 6x1, de seis dias de trabalho por um de folga. Defendeu que o tema fosse analisado só depois da eleição.

Em 13 de outubro, após visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro, seu pai, anunciou voto a favor da PEC. Sobre o custo para as empresas, disse que “quem vai pagar essa conta vai ser o governo”, porque “os empresários estão sufocados, estão quebrados”. Em 14 de outubro, votou à distância, e a PEC 221/2019 passou por 75 votos a 1 nas duas votações do Senado. A tabela abaixo resume as datas.

Flávio passou de crítico a favorável ao fim da escala 6x1 em seis dias Datas, votos e declarações de Flávio Bolsonaro, 2021 e 2026

Data Fato Resultado
1 set 2021 Senado vota a MP 1.045, a “minirreforma trabalhista”; Flávio vota “sim” 27 a favor, 47 contra, 1 abstenção: MP rejeitada
7 out 2026 Critica a PEC do fim da escala 6x1 Declaração pública
13 out 2026 Anuncia voto a favor da PEC Declaração pública
14 out 2026 Senado aprova a PEC 221/2019 nas duas votações; Flávio vota à distância 75 a 1 nas duas votações
16 out 2026 Promete não reverter o fim da escala 6x1 “Não, não vou”

Fonte: Congresso Nacional; CNN Brasil; Exame; Diário do Nordeste; Metrópoles. Elaboração: redação.

O que diz Flávio Bolsonaro: O plano diz que vai reduzir gradualmente o custo do trabalho “sem retirar direitos” e garante “efetiva proteção social e previdenciária” a quem trabalha por aplicativo, segundo a SBT News. Em 16 de outubro, em entrevista ao Jornal Nacional, disse que não vai reverter o fim da escala 6x1: “Não, não vou. Direitos trabalhistas garantidos”, segundo o Metrópoles. Nas fontes consultadas, não há resposta dele às críticas da FPA.

O que isso significa

Os dados mostram uma base sindical bem menor do que a de 2012, com alguma recuperação em 2024. O plano aposta no que for negociado entre as partes, e o título da seção resume essa escolha. Já a campanha defende um contrato por hora, que não aparece nos trechos do plano citados pela SBT News.

Segundo o Metrópoles, o coordenador da campanha, Rogério Marinho, apresentou a ideia. O líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante, disse que buscaria aprovar o modelo em 2027, se Flávio vencer. Ainda em aberto está o julgamento do Tema 1.389 no STF, e o segundo turno, em 25 de outubro, decide quem terá a palavra sobre essas regras.

Como fizemos: Usamos a taxa de sindicalização da PNAD Contínua, pesquisa domiciliar do IBGE (edição especial divulgada em 19/11/2025), para 2012, 2022, 2023 e 2024, conferida em 20 de outubro de 2026 na cobertura da Agência Brasil e do Brasil de Fato. As diferenças em pontos percentuais e em porcentagem são cálculos nossos. Os votos vêm de registros do Congresso Nacional, e as citações do plano vêm da SBT News, porque o link da campanha não abriu na nossa checagem. Os dados não medem o efeito de regras específicas, e não localizamos os valores dos contratos propostos.

Correção: a versão anterior datava de 6 de outubro a crítica de Flávio à PEC e citava um capítulo chamado “Trabalho que compensa”. Não localizamos essa data nem esse nome. A crítica documentada é de 7 de outubro, e a seção do plano tem o título “O trabalhador em primeiro lugar, não o sindicato”.

Fontes