Sindicalização em queda, plano de Flávio coloca o sindicato em segundo lugar
A taxa de sindicalização caiu de 16,1% em 2012 para 8,9% em 2024, e o plano registrado no TSE prevê contratos mais baratos e acordos acima da lei.

No dia 13 de agosto, Flávio Bolsonaro (PL) pediu registro de candidatura no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), com o plano de governo “Para o Brasil Vencer o Atraso”. Uma das seções sobre emprego traz no título o recado do texto: “O trabalhador em primeiro lugar, não o sindicato”.
Cruzando o plano com dados do IBGE, o achado é este. O plano dá mais peso ao que for negociado entre as partes, justamente quando a taxa de sindicalização está em 8,9%, contra 16,1% em 2012.
O sindicato representa uma categoria inteira de trabalhadores e negocia salário, jornada e benefícios com as empresas. A taxa de sindicalização mostra a parcela de trabalhadores filiados a um sindicato. O plano defende o “negociado sobre o legislado”, princípio em que o acordo entre as partes pode prevalecer sobre a regra da lei. Quanto menor a força do sindicato, menos peso o trabalhador tem nessa mesa.
O que o plano propõe
O plano diz que vai “reduzir gradualmente o custo do trabalho, sem retirar direitos”. Prevê também um contrato para jovens de 18 a 24 anos em busca do primeiro emprego. A Fundação Perseu Abramo (FPA), ligada ao PT, descreve esse contrato como de “menor custo na folha”. Para pessoas com 50 anos ou mais desempregadas há pelo menos 12 meses, o texto promete um contrato “mais atrativo”.
A FPA classifica a proposta como “precarização, vulnerabilidade e ataque aos sindicatos”. Sobre a pejotização, a contratação de trabalhadores como pessoa jurídica, a fundação diz que o plano “não apresenta resposta estruturada”. O caso, o Tema 1.389, segue sem julgamento final no Supremo Tribunal Federal (STF).
Menos sindicalizados desde 2012
Segundo o IBGE, 16,1% dos trabalhadores ocupados, ou seja, com emprego, eram sindicalizados em 2012. Em 2023, a taxa caiu para 8,4%, e em 2024 subiu para 8,9%, ou 9,1 milhões de pessoas. Na comparação com 2012, são 7,2 pontos percentuais a menos (a diferença entre as duas taxas), uma queda de 45% na taxa. O gráfico abaixo mostra as taxas dos anos com dado nas fontes consultadas.
Fonte: IBGE, PNAD Contínua (edição especial, divulgada em 19/11/2025), via Agência Brasil e Brasil de Fato. Mostra só os anos com dado nas fontes consultadas. Elaboração: redação.
Um analista do IBGE, William Kratochwill, disse que os dados mostram “uma correlação forte entre a implantação da lei e a queda” da filiação. A reportagem da Brasil de Fato identifica essa lei como a reforma trabalhista de 2017. Correlação não prova causa, mas a queda coincide com a mudança na regra.
O histórico de Flávio
Em 1º de setembro de 2021, Flávio votou a favor da Medida Provisória (MP) 1.045, que senadores apelidaram de “minirreforma trabalhista”. O Senado rejeitou a MP por 47 votos contra, 27 a favor e uma abstenção. Em 7 de outubro, ele criticou a proposta de emenda à Constituição (PEC) que acaba com a escala 6x1, de seis dias de trabalho por um de folga. Defendeu que o tema fosse analisado só depois da eleição.
Em 13 de outubro, após visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro, seu pai, anunciou voto a favor da PEC. Sobre o custo para as empresas, disse que “quem vai pagar essa conta vai ser o governo”, porque “os empresários estão sufocados, estão quebrados”. Em 14 de outubro, votou à distância, e a PEC 221/2019 passou por 75 votos a 1 nas duas votações do Senado. A tabela abaixo resume as datas.
Flávio passou de crítico a favorável ao fim da escala 6x1 em seis dias Datas, votos e declarações de Flávio Bolsonaro, 2021 e 2026
| Data | Fato | Resultado |
|---|---|---|
| 1 set 2021 | Senado vota a MP 1.045, a “minirreforma trabalhista”; Flávio vota “sim” | 27 a favor, 47 contra, 1 abstenção: MP rejeitada |
| 7 out 2026 | Critica a PEC do fim da escala 6x1 | Declaração pública |
| 13 out 2026 | Anuncia voto a favor da PEC | Declaração pública |
| 14 out 2026 | Senado aprova a PEC 221/2019 nas duas votações; Flávio vota à distância | 75 a 1 nas duas votações |
| 16 out 2026 | Promete não reverter o fim da escala 6x1 | “Não, não vou” |
Fonte: Congresso Nacional; CNN Brasil; Exame; Diário do Nordeste; Metrópoles. Elaboração: redação.
O que diz Flávio Bolsonaro: O plano diz que vai reduzir gradualmente o custo do trabalho “sem retirar direitos” e garante “efetiva proteção social e previdenciária” a quem trabalha por aplicativo, segundo a SBT News. Em 16 de outubro, em entrevista ao Jornal Nacional, disse que não vai reverter o fim da escala 6x1: “Não, não vou. Direitos trabalhistas garantidos”, segundo o Metrópoles. Nas fontes consultadas, não há resposta dele às críticas da FPA.
O que isso significa
Os dados mostram uma base sindical bem menor do que a de 2012, com alguma recuperação em 2024. O plano aposta no que for negociado entre as partes, e o título da seção resume essa escolha. Já a campanha defende um contrato por hora, que não aparece nos trechos do plano citados pela SBT News.
Segundo o Metrópoles, o coordenador da campanha, Rogério Marinho, apresentou a ideia. O líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante, disse que buscaria aprovar o modelo em 2027, se Flávio vencer. Ainda em aberto está o julgamento do Tema 1.389 no STF, e o segundo turno, em 25 de outubro, decide quem terá a palavra sobre essas regras.
Como fizemos: Usamos a taxa de sindicalização da PNAD Contínua, pesquisa domiciliar do IBGE (edição especial divulgada em 19/11/2025), para 2012, 2022, 2023 e 2024, conferida em 20 de outubro de 2026 na cobertura da Agência Brasil e do Brasil de Fato. As diferenças em pontos percentuais e em porcentagem são cálculos nossos. Os votos vêm de registros do Congresso Nacional, e as citações do plano vêm da SBT News, porque o link da campanha não abriu na nossa checagem. Os dados não medem o efeito de regras específicas, e não localizamos os valores dos contratos propostos.
Correção: a versão anterior datava de 6 de outubro a crítica de Flávio à PEC e citava um capítulo chamado “Trabalho que compensa”. Não localizamos essa data nem esse nome. A crítica documentada é de 7 de outubro, e a seção do plano tem o título “O trabalhador em primeiro lugar, não o sindicato”.
Fontes
- Economia e trabalho: veja as propostas de Flávio na íntegra — SBT News (trechos do plano, páginas 43 a 45 e 69, segundo a reportagem)
- Plano de governo de Flávio Bolsonaro (o link retornou erro 403 na checagem)
- Flávio Bolsonaro registra oficialmente candidatura pelo PL — SBT News
- Flávio Bolsonaro lança plano de governo de 70 páginas nesta quinta — A Tarde
- O mundo do trabalho no plano de governo do candidato Flávio Bolsonaro — Fundação Perseu Abramo
- Sobre a Fundação Perseu Abramo
- Número de sindicalizados no Brasil para de cair e chega a 9,1 milhões — Agência Brasil (dados do IBGE, acesso em 20/10/2026)
- Número de sindicalizados no Brasil para de cair e chega a 9,1 milhões — Brasil de Fato (dados do IBGE e fala do analista, acesso em 20/10/2026)
- MPV 1045/2021, votações — Congresso Nacional (acesso em 20/10/2026)
- MP 1.045 da reforma trabalhista: como votaram os senadores — DOL
- Flávio compara PEC do fim da 6x1 com promessa de picanha feita por Lula — Diário do Nordeste
- Flávio diz que votará por fim da 6x1 e que governo deverá pagar a conta — CNN Brasil
- Como Flávio Bolsonaro votou sobre o fim da escala 6x1 no Senado — Exame
- Flávio promete que não vai reverter fim da escala 6x1 se for eleito — Metrópoles
- STF retira suspensão de processos sobre pejotização na primeira instância e nos TRTs — STF
