Pedidos contra Flávio sobem de multa para cassação, e nenhum tem decisão
O MBLaico pediu multa em maio e agora pede cassação de Flávio após culto no Maracanãzinho; não há investigação aberta.

No sábado (10), o bispo Samuel Ferreira puxou catorze vezes o coro “irmão vota em irmão” no centenário da Assembleia de Deus Ministério Madureira, no Ginásio Maracanãzinho, no Rio. Ao microfone, ele disse que não podia pedir voto, mas que pediria voto para Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal (PL) e candidato à Presidência.
É o segundo pedido contra o senador em cinco meses, e a diferença está na pena. O de maio pedia multa de R$ 25 mil. O de outubro quer a cassação do registro ou do diploma, se houver irregularidades. Os dois casos tratam do uso de templos em campanha, e nenhum tem decisão.
O Maracanãzinho faz parte do Complexo do Maracanã, equipamento público estadual do Rio. Em 2024, o governo estadual homologou a concessão do complexo por 20 anos a um consórcio dos clubes Flamengo e Fluminense. A representação cita a Lei das Eleições, que restringe propaganda em templos e ginásios, mesmo quando são privados, segundo o ICL Notícias.
Uma representação é um pedido formal para que um órgão público investigue um fato. Não é uma investigação aberta. O pedido de outubro foi à Procuradoria-Geral Eleitoral (PGE), órgão do Ministério Público (MP) que fiscaliza as eleições. Não há decisão nem prazo.
De multa a pedido de cassação
Em 3 de maio, o pastor Silas Malafaia apoiou Flávio, então pré-candidato, durante um culto na Assembleia de Deus Vitória em Cristo (Advec), na Penha, no Rio. Segundo a Agência Pública, ele disse: “Esse é o tempo de eu apoiar o Flávio para presidente”. No dia seguinte, o Movimento Brasil Laico (MBLaico) acionou a Procuradoria Regional Eleitoral no Rio contra Malafaia, Flávio e outros quatro aliados. O grupo pediu multa de R$ 25 mil e inelegibilidade por oito anos, a proibição de disputar eleições.
O pedido de outubro, contra Flávio, o bispo Samuel Ferreira e a igreja, vai além da multa. Ele pede uma ordem urgente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para barrar novos pedidos de voto, diretos ou simulados, em cultos até o segundo turno. Se houver irregularidades, pede a cassação do registro ou do diploma de Flávio. A tabela compara os dois casos.
Pedido de outubro cobra cassação; o de maio pedia multa Pedidos do MBLaico contra Flávio Bolsonaro, por culto e penalidade pedida, 2026
| Pedido | Culto | Penalidade pedida | Situação |
|---|---|---|---|
| Maio | Advec, Penha (RJ), 3 de maio | Multa de R$ 25 mil; inelegibilidade de 8 anos | Sem decisão nem prazo |
| Outubro | Maracanãzinho (RJ), 10 de outubro | Cassação do registro ou diploma; inelegibilidade de 8 anos para os responsáveis | Sem decisão até 20/10 |
Fontes: Estado de Minas; Agência Pública; ICL Notícias. Elaboração: redação.
O que disse o bispo, e o que alega o pedido
Segundo o Jornal de Brasília, o bispo se defendeu: “Se a mídia aqui presente disser que estou pedindo voto está completamente equivocada.” Ele também afirmou: “Se eu pudesse pedir voto, eu pediria.” O bispo chamou Flávio ao púlpito de “futuro presidente da República Federativa do Brasil”.
Parte do público gritou “É 22!”, o número do PL. No evento, Flávio disse: “O bispo não pediu, mas a igreja está pedindo”. Para o MBLaico, o “se eu pudesse, pediria” é um pedido de voto disfarçado. O grupo aponta propaganda em bem de uso comum, abuso de poder econômico, benefício de fonte proibida e um evento com cara de comício disfarçado de show.
O conceito de abuso de poder religioso não está no Código Eleitoral, segundo o Jornal de Brasília. Mesmo assim, a Justiça Eleitoral já o usa para limitar a influência de líderes religiosos sobre os fiéis.
O que diz Flávio Bolsonaro: No evento, ao lado do bispo, ele disse: “O bispo não pediu, mas a igreja está pedindo”, segundo o Jornal de Brasília. Para ele, quem pedia voto não era o líder religioso. A reportagem não localizou manifestação dele sobre o pedido de outubro nas fontes consultadas.
De onde vem o dinheiro da campanha
Segundo o Poder360, R$ 55,2 milhões dos R$ 61,7 milhões captados por Flávio até 1º de outubro vieram do fundo partidário do PL, valores que não conseguimos localizar. Dados do TSE de 9 de setembro mostram R$ 44,3 milhões recebidos. Desses, R$ 42 milhões (cerca de 95%) vieram do PL pelo Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC), o fundo eleitoral, que não é o fundo partidário. O gráfico abaixo mostra a divisão.
Fonte: TSE, sistema DivulgaCand, consultado em 9 de setembro de 2026 (reproduzido pela Agora RN). “Outras fontes” é cálculo da redação: total menos o repasse do PL. Valores sem correção pela inflação, por se referirem a um único momento. Elaboração: redação.
O que isso significa
Até 20 de outubro, não encontramos decisão da PGE, do TSE nem do procurador sobre os dois pedidos. O segundo turno é em 25 de outubro, quinze dias depois do culto.
Os dados de setembro mostram que a maior parte do dinheiro de Flávio veio do fundo eleitoral, via PL. O caso, porém, gira em torno do uso do templo e da fala no culto. Seguem em aberto a decisão da PGE, o pedido urgente ao TSE e a aplicação do conceito de abuso de poder religioso.
Como fizemos: Lemos o relato do culto no Jornal de Brasília e o pedido de outubro no ICL Notícias, e conferimos o contexto de maio em outras reportagens, acessadas em 20 de outubro de 2026. Os dados de arrecadação são do TSE (sistema DivulgaCand), consultados em 9 de setembro de 2026 e reproduzidos pela Agora RN. A parcela de 95% e os R$ 2,3 milhões de outras fontes são cálculo nosso; não há comparação entre anos, por isso não houve correção pela inflação. Não conseguimos confirmar os valores de outubro atribuídos ao Poder360 nem a fala de Malafaia atribuída à Agência Pública; os dados não mostram o mérito dos pedidos, ainda não analisados.
Fontes
- Flávio Bolsonaro canta em culto e recebe pedido simulado de voto de líder da Assembleia de Deus — Jornal de Brasília (acesso em 20/10/2026)
- Entidade pede investigação e cassação de Flávio Bolsonaro por propaganda em culto no RJ — ICL Notícias (acesso em 20/10/2026)
- Governo do Rio homologa e publica concessão do Complexo do Maracanã — Agência Brasil (acesso em 20/10/2026)
- Flávio Bolsonaro recebe apoio de Malafaia durante culto no RJ — Estado de Minas
- Flávio Bolsonaro se reaproxima de Malafaia — Correio da Manhã
- Propaganda eleitoral antecipada: procurador decidirá sobre ação contra Flávio e Malafaia — Agência Pública
- Flávio lidera arrecadação eleitoral — Agora RN (dados do TSE/DivulgaCand) (acesso em 20/10/2026)
- Saiba quais são os principais doadores de Lula e Flávio — Poder360
- Os principais doadores das campanhas de Lula e Flávio — GGN
