Entidade ligada ao Dark Horse captou só R$ 107 mil na Rouanet
Flávio disse que o filme não usou a Rouanet, mas uma entidade ligada à produtora pediu R$ 8,59 milhões pela lei e captou R$ 107 mil.

Em entrevista ao Jornal Nacional, em 28 de agosto, o senador Flávio Bolsonaro (PL) disse sobre o filme Dark Horse: “Eu não fui buscar dinheiro Lei Rouanet”. A Lupa classificou a frase como “falta contexto”. Uma entidade ligada à produtora do filme, porém, buscou captar R$ 8,59 milhões pela mesma lei, e captou só R$ 107 mil, segundo a Folha de S.Paulo. Os dados mostram o que a frase deixa de fora.
A Lei Rouanet é a lei federal de incentivo à cultura. Ela permite que empresas e pessoas destinem a projetos culturais aprovados parte do Imposto de Renda que pagariam. Segundo a Lupa, a lei não financia longas-metragens. Filmes desse tipo usam outros mecanismos, como o Fundo Setorial do Audiovisual (FSA).
O que a Rouanet recebeu de fato
Em maio, a Folha revelou que o Instituto Conhecer Brasil buscou captar R$ 8,59 milhões pela lei. A entidade é presidida por Karina Ferreira da Gama, sócia-administradora da Go Up Entertainment, produtora do filme. Os pedidos são de quatro projetos apresentados entre 2015 e 2019. Nenhum deles é o filme.
Segundo a Folha, os projetos foram aprovados para captação, mas só um captou dinheiro: R$ 107 mil, para o balé Rute. O maior pedido, de R$ 5,9 milhões para shows da Marcha para Jesus, não captou nada, nem com o prazo estendido até o fim de 2022. Captar R$ 107 mil equivale a 1,2% do total pedido.
Pedidos da entidade à Rouanet foram aprovados, mas quase nada foi captado Valor aprovado para captação e valor captado, em R$ nominais, por projeto apresentado entre 2015 e 2019
| Projeto | Valor aprovado | Captado |
|---|---|---|
| Shows da Marcha para Jesus | R$ 5,9 mi | Nada |
| Turma do Smilinguido (teatro) | cerca de R$ 1,2 mi | Nada |
| Turnê Hadassah Perez | cerca de R$ 1,2 mi | Nada |
| Balé Rute | R$ 157 mil | R$ 107 mil |
Fonte: Folha de S.Paulo, republicada pelo Bahia Notícias (23/05/2026). Valores aproximados, como publicados. A soma das linhas, cerca de R$ 8,5 mi, fica abaixo do total de R$ 8,59 mi. Elaboração: redação.
Quanto veio de fora da lei
Fora da Rouanet, o filme buscou dinheiro privado. Segundo o Intercept, Flávio negociou com o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, um aporte de US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões. Pelo menos US$ 10,6 milhões, cerca de R$ 61 milhões, foram pagos entre fevereiro e maio de 2025, segundo a BBC.
Corrigido pelo IPCA até setembro de 2026, o valor negociado equivale a cerca de R$ 140 milhões. O pedido à Rouanet, corrigido da mesma forma, vale pelo menos R$ 12,4 milhões. Por isso, o valor negociado é, no máximo, cerca de 11 vezes o pedido. Em dólar, o valor pago equivale a cerca de 44% do prometido.
Fonte: Intercept Brasil e BBC (valores de Vorcaro); Folha de S.Paulo (Rouanet); IPCA, Banco Central (SGS, série 433). Valores em R$ de setembro de 2026: negociado corrigido desde setembro de 2025, pago desde maio de 2025, pedidos da Rouanet desde dezembro de 2019. Elaboração: redação.
Parte desse dinheiro foi para o Havengate Development Fund, registrado em Dallas, no Texas. Seu agente legal é o escritório do advogado Paulo Calixto, que defende Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. Segundo a BBC, o fundo recebeu pelo menos US$ 2 milhões de uma empresa ligada a Vorcaro. Segundo o Intercept, era uma empresa inativa, registrada em 2020 para um projeto imobiliário que nunca obteve licença.
Em 16 de novembro de 2025, Flávio escreveu a Vorcaro: “Irmão, estou e estarei contigo sempre”. Em 13 de maio de 2026, em coletiva de imprensa, ele disse que a reportagem era “mentira”. Horas depois, em nota, reconheceu ter buscado patrocínio privado e negou ter oferecido vantagens em troca. Em 24 de setembro, o Aos Fatos contou ao menos 43 declarações enganosas de Flávio sobre o caso.
O que segue em aberto
O dinheiro está no centro de um inquérito do Supremo Tribunal Federal (STF), aberto a pedido da Polícia Federal (PF). Segundo a Agência Brasil, o ministro André Mendonça incluiu Flávio como investigado em 22 de julho. A apuração trata de possíveis crimes de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção. Flávio é investigado, não réu.
O Intercept também cita organizações não governamentais (ONGs) ligadas ao meio evangélico. O Instituto Conhecer Brasil tem contrato com a prefeitura de São Paulo para o wi-fi da cidade, que começou em R$ 108 milhões e foi ampliado. Segundo o Intercept, outra ONG recebeu R$ 1,08 milhão em emendas de vereadores paulistanos para um evento de jovens da Igreja Universal. Nas reportagens consultadas, não há registro de dinheiro público dessas ONGs chegando ao filme.
O que diz Flávio Bolsonaro: Em maio, ele afirmou: “Zero de dinheiro público. Zero de lei Rouanet”, segundo o Poder360. Em 16 de outubro, disse à Globo que o dinheiro foi “totalmente lícito” e de uma relação “privada”, segundo a CNN Brasil.
O que isso significa
Os dados mostram que uma entidade ligada ao filme buscou R$ 8,59 milhões pela Rouanet e captou 1,2% disso. Segundo a Lupa, a frase de Flávio fica sem contexto, porque deixa esse histórico de fora.
O que segue em aberto é a origem do dinheiro privado e como ele foi usado. Até uma decisão da Justiça, o que há são suspeitas em investigação, não fatos provados.
Como fizemos: Usamos a reportagem da Folha sobre os pedidos à Rouanet (republicada em 23/05/2026) e a checagem da Lupa (28/08/2026), acessadas em 20/10/2026. As reportagens do Intercept sobre os valores de Vorcaro, cuja página original bloqueou nossa consulta, foram conferidas pela BBC, pela Apublica e pelo Poder360, que também usamos para as falas de Flávio. Corrigimos os pedidos pelo IPCA (Banco Central, série 433) desde dezembro de 2019, último ano de apresentação, e o valor negociado desde setembro de 2025. Projetos mais antigos seriam corrigidos mais, então o pedido corrigido é um mínimo e a razão de 11 vezes, um máximo. A parte de 1,2% e a comparação em dólar de 44% são do mesmo período e não exigem correção; os dados não mostram como o dinheiro privado foi usado.
Correção: Uma versão anterior deste texto dizia que o Dark Horse pediu R$ 8,6 milhões à Lei Rouanet e que o pedido foi negado. Os pedidos foram do Instituto Conhecer Brasil, para quatro projetos que não incluem o filme, e foram aprovados para captação. A versão também dizia que Flávio falou à CNN Brasil e que o Aos Fatos citou 43 declarações falsas; a entrevista foi à Globo, e o termo do Aos Fatos é “enganosas”.
Fontes
- Ao vivo: checagem da entrevista de Flávio Bolsonaro ao Jornal Nacional — Lupa (acesso em 20/10/2026)
- Dona de produtora de filme sobre Bolsonaro buscou Lei Rouanet para projetos de R$ 8,6 milhões — Folha de S.Paulo, republicada pelo Bahia Notícias (acesso em 20/10/2026)
- Flávio mentiu ao menos 43 vezes sobre envolvimento com Vorcaro — Aos Fatos
- Áudio: Flávio negociou milhões com Vorcaro — Intercept Brasil (acesso bloqueado na consulta; valores conferidos nas reportagens abaixo)
- Áudio vazado: Flávio Bolsonaro cobra R$ 134 milhões de Vorcaro — Apublica (acesso em 20/10/2026)
- Havengate: o fundo na mira da PF que conecta Vorcaro, Flávio e Eduardo Bolsonaro — BBC, via O Povo (acesso em 20/10/2026)
- Fundo Havengate abandonou projeto antes de receber milhões de Vorcaro — Intercept Brasil (acesso bloqueado na consulta; detalhe sobre 2020 não verificado)
- Flávio confirma pedido de dinheiro a Vorcaro, mas diz que era privado — Poder360 (acesso em 20/10/2026)
- Mendonça incluiu Flávio Bolsonaro como investigado no caso Dark Horse — Agência Brasil
- Prefeitura de SP dá mais R$ 49 milhões a contrato com ONG ligada a filme de Bolsonaro — Jornal do Brasil (acesso em 20/10/2026)
- Dark Horse, evangélicos e o contrato de R$ 108 milhões — Intercept Brasil (acesso bloqueado na consulta; emenda de R$ 1,08 milhão não verificada)
- Flávio diz que dinheiro de Vorcaro para Dark Horse era lícito e privado — CNN Brasil (acesso em 20/10/2026)
- IPCA, variação mensal (série 433) — Banco Central do Brasil, SGS (acesso em 20/10/2026)
