Direitos

Flávio votou pelo fim da 6x1; aliados ainda defendem pagar por hora

Em 14 de outubro, Flávio Bolsonaro votou a favor da PEC 221/2019, sete dias depois de criticar o fim da escala 6x1.

Painel eletrônico do plenário do Senado mostra 75 votos sim e 1 não na votação da PEC 221/2019, ao lado dos votos de senadores de São Paulo, Sergipe e Tocantins
Painel do Senado com o resultado da votação em primeiro turno da PEC 221/2019, que acaba com a escala 6x1, em 14 de outubro de 2026.Foto: Ton Molina / Agência Senado / Flickr (CC BY-SA 4.0)

Em 7 de outubro, o senador Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal (PL), criticou a proposta que acaba com a escala 6x1, de seis dias de trabalho para um de folga. “Só que nada disso vai adiantar se estiver todo mundo endividado ou desempregado”, disse, segundo o Metrópoles.

Sete dias depois, em 14 de outubro, ele votou a favor da mesma proposta. O voto foi nos dois turnos, à distância, e a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 221/2019 passou no Senado por 75 votos a 1. Segundo o Amazonas1, ele disse que mudou depois de ouvir trabalhadores, e o voto está registrado. Mas o caminho até ele tem uma condição no meio, e os aliados não mudaram junto.

A escala 6x1 é a jornada em que o trabalhador cumpre seis dias e tem um de folga. O texto aprovado reduz a jornada máxima de 44 para 40 horas por semana, sem corte de salário, e garante dois dias de descanso remunerado. O Congresso promulgou o texto em 16 de outubro.

Uma semana entre a crítica e o voto

Antes da crítica de 7 de outubro, Flávio já tinha uma alternativa. Em 6 de outubro, ele disse que Lula faz um movimento “oportunista” e defendeu que cada trabalhador monte a própria jornada. “Nossa proposta é dar essa liberdade para que o trabalhador monte a sua jornada de trabalho”, afirmou, segundo o Jornal Correio.

Essa alternativa é a PEC 12/2026, conhecida como “PEC do horário flexível”. Ela foi apresentada em 28 de maio com 40 assinaturas, entre elas a de Flávio, segundo o Poder360. Pelo texto, o pagamento acompanharia as horas efetivamente trabalhadas.

Segundo o Intercept Brasil, essa regra abre brecha para reduzir salários. Outra cobertura, do Jornal Correio, descreve mecanismo semelhante: com jornada menor e acordo entre patrão e empregado, o salário também pode cair. A tabela abaixo reúne as posições públicas do senador, em ordem de data.

Em uma semana, Flávio passou da crítica ao voto a favor Posições públicas de Flávio Bolsonaro sobre o fim da escala 6x1, de 28 de maio a 18 de outubro de 2026

Data O que disse ou fez Fonte
28/5 Assina a PEC 12/2026, a “PEC do horário flexível” Poder360
6/10 Defende jornada escolhida pelo trabalhador e diz que Lula faz movimento “oportunista” Jornal Correio
7/10 “Nada disso vai adiantar se estiver todo mundo endividado ou desempregado” Metrópoles
13/10 Diz que votaria a favor e que “quem vai pagar essa conta vai ser o governo” CNN Brasil
14/10 Vota a favor da PEC 221/2019 nos dois turnos, à distância Exame
16/10 Promete não reverter o fim da escala se for eleito Metrópoles
18/10 No debate da TV Bandeirantes: “Eu sou uma pessoa que sei ouvir” Amazonas1

Fonte: Poder360, Jornal Correio, Metrópoles, CNN Brasil, Exame e Amazonas1. Elaboração: redação.

Quem paga a conta

Em 13 de outubro, Flávio disse que votaria pelo fim da escala. Afirmou, porém, que “quem vai pagar essa conta vai ser o governo”, porque as empresas estão com as finanças apertadas, segundo a CNN Brasil. Segundo o governo federal, 14,9 milhões de pessoas seriam beneficiadas, cerca de um terço dos 44,7 milhões com carteira assinada. As reportagens consultadas não trazem estimativa do custo dessa transferência.

Escala menor, salário em disputa

No dia 16 de outubro, em entrevista ao Jornal Nacional, Flávio prometeu não reverter o fim da escala se for eleito. “Não, não vou. Direitos trabalhistas garantidos”, disse, segundo o Metrópoles. Mas dois aliados seguem defendendo a contratação por hora: Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha, e Sóstenes Cavalcante (RJ), líder do PL na Câmara. Sóstenes pretende aprovar essa proposta em 2027, se Flávio vencer.

A redução tem calendário. A jornada cai para 42 horas dois meses depois da publicação da emenda no Diário Oficial da União, e para 40 horas mais doze meses depois. São quatro horas a menos por semana, uma redução de 9,1% sobre as 44 atuais, cálculo nosso. A tabela abaixo mostra cada etapa.

Jornada máxima cai 4 horas por semana, em duas etapas Jornada máxima semanal, em horas, e redução em relação às 44 horas de antes da emenda, em %

Etapa Jornada máxima Redução
Antes da emenda 44 horas —
Primeira etapa, dois meses após publicação no Diário Oficial 42 horas 4,5%
Segunda etapa, doze meses depois 40 horas 9,1%

Fonte: Correio da Manhã (prazos) e Agência Senado, via jornal A União (jornada final de 40 horas). Redução calculada pela redação: (44 − jornada) ÷ 44. Elaboração: redação.

O que diz Flávio Bolsonaro: No debate da TV Bandeirantes, em 18 de outubro, disse: “Eu sou uma pessoa que sei ouvir, eu sei escutar”. Segundo o Amazonas1, ele afirmou ter passado a apoiar o fim da 6x1 depois de ouvir trabalhadores. Nas fontes consultadas, ele não apresentou estimativa de custo para a mudança.

O que isso significa

O histórico ajuda a medir a promessa. Em 1º de setembro de 2021, Flávio votou a favor da Medida Provisória (MP) 1.045, a chamada “minirreforma trabalhista”. O Senado rejeitou a MP por 47 votos a 27, segundo o DOL.

Os dados mostram o tamanho da mudança: quatro horas a menos por semana, para cerca de 14,9 milhões de pessoas, segundo o governo. Não mostram quanto custaria a conta atribuída ao governo, nem se a promessa de 16 de outubro vai se manter. O trabalhador pode perguntar qual dessas posições governaria a partir de janeiro.

Como fizemos: Usamos falas e votos de Flávio Bolsonaro entre 28 de maio e 18 de outubro de 2026. As reportagens são de Metrópoles, Exame, CNN Brasil, Poder360, Jornal Correio, DOL, O Povo e Amazonas1, acessadas em 20 de outubro de 2026. Conferimos o resultado da votação na reprodução da nota da Agência Senado, e calculamos a redução da jornada (de 44 para 40 horas, ou 9,1%). Também calculamos a proporção de 14,9 milhões sobre 44,7 milhões, cerca de um terço, e não corrigimos valores pela inflação, porque o texto não compara reais entre anos. Não conseguimos abrir a reportagem do Intercept Brasil, por isso sua leitura aparece atribuída ao site. Os prazos da emenda dependem da publicação no Diário Oficial da União, que não conferimos, e os veículos divergem sobre a contagem. Também não confirmamos o número de assinaturas da PEC 12/2026, que pode ter mudado após relatos de retiradas. Os dados não mostram o custo da proposta nem o que o senador fará se eleito.

Fontes