Devido processo

Só 23% dos policiais usaram câmeras na Operação Contenção

Relatório analisou 305 câmeras da linha de frente e encontrou gravações médias de 6h38, lacunas e equipamentos obstruídos.

Autoridades das polícias Civil e Militar do Rio durante sessão no Senado
Autoridades de segurança do Rio participam de sessão sobre a Operação Contenção no Senado, em novembro de 2025.Foto: Geraldo Magela / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Apenas 23% dos cerca de 2,5 mil policiais que participaram da Operação Contenção usavam câmeras corporais. O dado consta em relatório da Human Rights Watch (HRW) divulgado nesta quarta-feira (28). A organização também encontrou interrupções e lacunas nas gravações disponíveis.

As câmeras são equipamentos acoplados à farda para registrar a atuação policial. Elas não substituem perícia ou testemunhos, mas ajudam a reconstruir fatos. No caso do Rio, as falhas limitam a verificação das 117 mortes de não policiais ainda sob investigação.

O que os números mostram

A HRW examinou as câmeras de 305 policiais da linha de frente. O tempo médio de gravação foi de 6 horas e 38 minutos. A autonomia esperada dos equipamentos era de 12 horas, segundo o relatório.

Falhas reduzem o registro da operação Dados das câmeras analisados pela Human Rights Watch

Indicador Resultado
Policiais da operação que usavam câmeras 23%
Tempo médio de gravação em 305 equipamentos 6h38
Autonomia esperada 12 horas
Equipamentos com interrupção ou lacuna após meio-dia 55%
Mortes de não policiais gravadas 0

Fonte: relatório da Human Rights Watch divulgado pela Agência Brasil. Elaboração: redação.

A média de gravação ficou 5 horas e 22 minutos abaixo da autonomia esperada. Esse cálculo compara duração de bateria e material efetivamente registrado, não a duração total da ação. O relatório afirma que o protocolo previa baterias extras em operações longas, mas elas não foram levadas.

Ausência de imagem não prova o que ocorreu

A HRW identificou policiais cobrindo lentes ou retirando câmeras das fardas. Também encontrou equipamentos deixados em viaturas e baterias esgotadas. As interferências apareceram em prisões, tiroteios e entradas em residências.

Nenhuma das 117 mortes de não policiais foi gravada. Esse vazio não demonstra, por si, execução ou legítima defesa. Ele reduz a possibilidade de confirmar versões e aumenta a dependência de laudos, vestígios e depoimentos.

O Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) já havia encontrado desligamentos intencionais e obstruções. Em março, recomendou melhor distribuição dos equipamentos e identificação dos agentes. Para operações não planejadas sem câmera, pediu comunicação em até 24 horas, com justificativa.

Prova também protege o policial

Registros completos podem documentar ameaças, ordens e a necessidade do uso da força. Assim, câmeras não servem apenas para apurar abusos contra moradores. Elas também protegem agentes diante de acusações incompatíveis com as imagens.

A análise precisa separar problemas técnicos de condutas deliberadas. Bateria descarregada pode resultar de planejamento insuficiente. Mão sobre a lente ou equipamento retirado exige apuração específica da intenção e do contexto. As duas situações produzem lacunas, mas têm consequências processuais diferentes.

A utilidade das imagens também depende da cadeia de custódia. Esse é o registro de quem coletou, armazenou e acessou a prova. Ele permite verificar se o arquivo permaneceu íntegro e se trechos foram perdidos. Em uma operação com milhares de horas, organizar esse controle é indispensável para comparar vídeos, horários e agentes.

Mesmo um equipamento funcionando oferece apenas um ponto de vista. A câmera pode não captar sons distantes, ações fora do enquadramento ou a origem de disparos. Por isso, imagens precisam ser confrontadas com perícia e testemunhos. A recomendação de ampliar seu uso busca mais evidência, não uma resposta automática.

O que diz a Secretaria de Segurança Pública do Rio: A pasta afirma que as investigações sobre as 117 mortes continuam. Em nota à Agência Brasil, informou 242 depoimentos e 553 laudos produzidos ou analisados, além de outros 105 exames previstos.

O que vem a seguir

A HRW examinou 4,4 mil horas de vídeo, quase 9 mil páginas do procedimento e 122 laudos. O material agora deve ser avaliado junto às demais provas pelas autoridades. A existência do relatório não encerra os inquéritos.

Para o devido processo, o ponto central é preservar evidências antes que desapareçam. Isso inclui câmeras, armas, locais das mortes e registros de comando. Sem esse trabalho, famílias e investigados ficam dependentes de versões que não podem ser testadas adequadamente.

Como fizemos: Conferimos os dados do relatório da HRW e as recomendações do MPRJ reproduzidos pela Agência Brasil, acessados em 28/10/2026. Subtraímos 6h38 de 12 horas para obter a diferença de 5h22. Os percentuais descrevem os grupos analisados e não provam conduta criminosa.

Fontes